terça-feira, 30 de dezembro de 2014

EXIGÊNCIA



Quantas fontes de provento
que o poder foi confiscar.
Sem pudor e a seu contento,
as passou a administrar.

Quanto force a evitar
tão injusto tratamento
não somente é de louvar;
foros tem de um mandamento.

Sendo um jus indeclinável
reclamá-lo é louvável;
mais do que isso, obrigação.

Exigência de equidade,
qual direito, é, na verdade,
um dever; mor que uma opção.

João d’Alcor


domingo, 28 de dezembro de 2014

A NEGLIGÊNCIA DE SUPERVISÃO

                                 



            Mais de 12 mil crianças e adolescentes foram sinalizadas em 2013 pelas comissões de protecção de menores por situações de negligência. Esta traduz-se em os pais, ou quem os substitui, não cuidarem daqueles que são menores e que têm a seu cargo. Ela é considerada como uma forma de violência em que o agressor assume um comportamento passivo, de omissão dos seus deveres básicos em relação àqueles que tem a obrigação de cuidar.
De entre as várias formas que a negligência assumiu nos dados que vieram a público (médica, higiénica, física…), cerca de metade das pessoas visadas sofreu a negligência de supervisão. Esta traduz-se em a criança e o adolescente ficarem entregues a si próprios, estando sujeitos a todos os tipos de riscos. Assim, os pais não providenciaram para que os filhos tivessem a necessária frequência escolar, não responderam às solicitações da escola, não participaram na educação dos filhos, não lhes administraram as regras a partir de casa.
Como se sentirá a criança ou adolescente entregue a si próprio? Certamente que mal-amado, com inseguranças e vulnerabilidades. E na escola, como serão estes alunos? Só por excepção eles responderão às solicitações daquilo que o sistema escolar lhes exige. E que tipo de adultos poderão vir a ser estas pessoas?
Na raiz desta negligência estarão, certamente, múltiplos factores, de ordem familiar, social, de toxicodependência…
Note-se que foi a escola, na grande maioria dos casos, a entidade que alertou as autoridades para esta negligência. E é ainda ela, com todas as suas limitações, que se constitui em elemento de ajuda, contribuindo para que estas crianças e adolescentes possam, talvez, ainda, ser elementos onde cintile a esperança de um futuro, melhor do que aquele que estão a viver.


                                              Mário Freire

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

EXERCITAÇÃO




Na ginástica, é normal
dar ao corpo muita atenção.
Que não seja excepcional
alargarmos tal  noção.

Há ginástica da vontade,
exercícios da memória,
trabalho à saciedade
e mil  artes, rumo à glória.

Tem a exercitação
fito que nos desafia
em processo permanente.

Treino para a perfeição,
pode roçar a utopia,
mas digno é, se tido em mente.


João d’Alcor

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

POR QUE SE COMEÇA A FUMAR

                                 


De entre as múltiplas razões que levam o/a adolescente a começar a fumar, elenco três: necessidade de afirmação pessoal, desejo de aceitação pelo grupo e imitação de adultos relevantes.
A necessidade de afirmação talvez tenha a ver com o desejo de influenciar os outros, de ser ouvido. Mas, para isso, há que mostrar que se sabe o que se quer, que se é autónomo. Em princípio, só os adultos fumariam; ser adulto significaria emancipação, controlo da sua vida. Por isso, ao fumar, o rapaz e a rapariga podem querer estar a enviar a mensagem de que são pessoas que sabem ultrapassar as convenções, que são sociáveis, descontraídos e que já têm autonomia.
O grupo de amigos, por sua vez, é tão importante para o adolescente como a família. Eles e elas precisam do grupo para conviverem e desenvolverem as suas capacidades sociais. É aí que começam a forjar-se as lideranças, a capacidade de negociação, o testar das afectividades… As suas ideias são melhores recebidas no grupo do que na família. Ora, se existe uma parte significativa de fumadores/as no grupo, por que estar a destoar dessa maioria?
Quanto à imitação, ela tem lugar em relação a alguém a quem se atribui um estatuto elevado ou que merece a confiança. Imita-se, frequentemente, para reforçar a auto-estima. Pai, mãe ou irmãs/os mais velhos, fumadores, tendem a ser modelos, que mais não seja, no comportamento do fumo, para os seus familiares mais próximos. E os adolescentes, imitando-os, sentem-se, não só desculpabilizados como, também, autorizados a assumir o comportamento que estão a adquirir.
Fumar é, pois, um comportamento que radica em motivações psicológicas e sociais. Conhecer as causas deste comportamento tão difundido entre a juventude pode ser o melhor meio para se ensaiarem as vias de o combater. A família, em primeiro lugar, mas, também a escola seriam as instituições onde esse combate deveria iniciar-se. Será que elas estão capacitadas ou o desejam fazer?


                                                      Mário Freire

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ESPIRAL



Quando há planta que se enrola
a uma outra mais potente,
cada espira faz de cola,
dando um passo mais em frente.

Uma vez em ‘scadaria,
sempre em torno do mesmo eixo,
a ‘spiral me serve de guia,
rumo a auge o qual não deixo.

Vem-me à mente o parafuso
e a loucura de um tornado:
Obra firme ou destruída.

Há o bom ou o mau uso,
sentido certo ou passo errado,
no A-D-N, na própria vida.


João d’Alcor

sábado, 20 de dezembro de 2014

ESTAR DO MESMO LADO DA BARRICADA

                          


Apareceu há meses na comunicação social uma proposta, feita por uma entidade sindical, na qual se defendia a criação de legislação que permitisse aos encarregados de educação faltar ao trabalho para poderem acompanhar a vida escolar dos seus educandos. Ora, há muitas maneiras de fazer esse acompanhamento. Uma das mais relevantes é, sem dúvida, a participação nas reuniões de pais.
Julgo que muitos pais perdem a oportunidade de conhecer as metas educativas que a escola definiu, alheiam-se da vida da escola, não debatem temas que tocam de perto os seus educandos, por não participarem nessas reuniões. E essa ausência e esse desconhecimento pagam-se, normalmente, caro.
É certo que nem todas as reuniões suscitam interesse. E as razões são várias: tratarem-se nelas problemas individuais (para isso há os encontros com o director de turma); haver alguém que gosta de evidenciar os seus dotes oratórios, monopolizando as intervenções; os temas tratados não serem nem suficientemente motivadores nem importantes; condução menos correcta da reunião.
Não cabe aqui enunciarem-se os comportamentos de um bom condutor de reuniões. Reconheço, no entanto, que uma motivação prévia dos pais sobre a sua importância e a enunciação dos temas a debater, a hora exacta do seu começo e termo e a informação, no seu início, das regras que devem pautar cada intervenção, em muito ajudariam a torná-las eficazes e a chamar mais pessoas a elas.
As reuniões de pais, para além dos objectivos específicos de cada uma, poderiam contribuir, ainda, para pôr do mesmo lado os professores e a família e mostrar aos educandos que os pais não vão à escola só para protestar mas, também, para se informarem e darem o seu contributo na educação que àqueles é oferecida.


                                                                Mário Freire

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

CANTE ALENTEJANO






                                    Ilustração do autor


A declaração do Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade foi aprovada pelo Comité Intergovernamental da UNESCO,  em Paris, no passado dia 27 de Novembro. Logo após a feliz decisão, as vozes dos cantadores do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa fizeram-se ouvir nos espaços da nobre Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura na capital francesa.
Todos sabemos que, com uma ou outra excepção, por razões óbvias, os media  preferem os grande escândalos.  Casos como o que tem ocupado as primeira páginas na semana que findou, vendem, seguramente muito mais do que esta honraria atribuída à cultura portuguesa. Todos sabemos que é assim e é ingénuo quem pensar o contrário.
Na literatura sobre a gastronomia alentejana encontram-se referências a uma certa associação que sempre se fez entre os comeres e o cante que distinguem esta que é a maior província de Portugal. Não será exagerado dizer que todo aquele que teve o privilégio de ouvir os homens em coro numa das muitas vendas e tabernas, onde os cheiros da cozinha invadem a zona de convívio, não poderá deixar de fazer esta associação. Quem já comeu numa qualquer aldeia do Alentejo e, a dada altura, os homens se levantam e unem num coral, único na museografia nacional e mundial, não pode deixar de ligar os sons e os sabores que ali persistem, como que a fazerem frente à mundialização cultural que nos invade.
Sempre associei os aromas da gastronomia tradicional alentejana aos seus cantares. E isso resulta de uma vivência começada em criança, em finais dos anos 30, quando ia à taberna do Monginho buscar meio litro de vinagre e por lá me esquecia a ouvir os homens, à volta de uma grande mesa forrada de oleado, repleta de petiscos perfumados e de copos de vinho, uns cheios, uns meios, outros vazios. Foi numa destas idas ao Monginho que o «Meu lírio roxo» nunca mais se separou do grão cozido, a fumegar, temperado de azeite e vinagre, com salsa e cebola picadas, que os homens comiam a acompanhar sardinhas de barrica acabadas de fritar, enchendo o espaço do convidativo cheiro da fritura. Esta junção dos cantares, dos comeres e seus odores, tive-a por diversas vezes, na adolescência, de que recordo um fim de tarde, nos anos 50, na venda do Ti’ Zé Calado, na Vendinha, em que se assavam linguiças e farinheiras e se ouvia, cadenciada, «A ribeira quando nasce, vai de pedrinha em pedrinha...». Uma outra vez, foi na tasca do Rabino, em Valverde, num Agosto seco e escaldante, corria o ano de 1964. Foi com os rurais que ali trabalhavam nas escavações da Anta Grande do Zambujeiro e no Cromeleque dos Almendres com o arqueólogo Henrique Pina. E nesta era o coelho frito, temperado de alho e pimentão, e as perninhas de rã de tomatada, ao som do «Deitei o limão correndo...». O aroma e o sabor do toucinho tirado da salgadeira e assado na brasa, comido com pão à navalha e copinhos de aguardente perfumada, saída ainda quente do alambique, na grande adega das Cortiçadas, em São Sebastião da Giesteira, nunca mais se separou do «Ao romper da aurora, sai o pastor  da cabana...»
Uns tempos mais tarde, ainda a «Grândola, Vila Morena», do grande e saudoso Zeca, não tinha a conotação que passou a ter a partir “daquela Madrugada”, os seus belos acordes remataram uma monumental açorda de poejos com bacalhau e ovos cozidos, comida lá para as tantas, para “desenratar” de uma jornada de fartas comezainas e muitos copos nas bodas de um parente.
A última situação que me foi dado viver deste casamento de sabores e cantares teve lugar em finais de 1998, na Pousada dos Lóios, em Évora, durante um almoço oferecido aos participantes do «1º Simpósio Internacional para a Paleobiologia dos Dinossáurios», que tive o gosto de promover, como director do Museu Nacional de História Natural. Uma vintena de cientistas de nomeada, oriundos das cinco partes do mundo, saborearam as belíssimas entradas de paio, presunto e queijos locais e deliciaram-se com o magnífico ensopado de borrego, olhando e sorrindo para nós como que a dizer «que coisa boa!». Começavam eles a regalar-se com a encharcada, bem perfumada de canela, quando um grupo coral de homens e mulheres, envergando os trajes regionais, irrompeu lá no fundo do grande claustro, cantando e marchando, grudados uns aos outros, numa mole humana que se aproximava, lenta e cadenciada, a passo certo, num crescendo de arrepiar os cabelos e trazer aos olhos uma lágrima rebelde: «Olha a noiva, se vai linda...».


 Grupo de Cante Alentejano de Évora, por ocasião do 1º Encontro Internacional de Paleobiologia dos Dinossáurios, na Pousada dos Lóios.



Como alentejano que me orgulho de ser, cantei com eles e desses momentos  conservo na memória os olhos a brilhar da Doutora Angela Milner, do Museu de História Natural de Londres, o ar extasiado do Prof. John Horner, o paleontólogo americano que se celebrizou como assessor científico de Spielberg no inesquecível Jurassic Park, ou o do Prof. Detlev Thies, da Universidade de Hannover. Não esqueço ainda o ar feliz de merecido orgulho do Dr. Abílio Fernandes, um dinossáurio entre os autarcas do pós-25 de Abril, um goês que assimilou, a cem por cento, a maneira de ser e de estar dos alentejanos.
Lisboa, 02 de Dezembro de 2014


                                    Galopim de Carvalho

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

ÊXTASE




Ver que a vida é tão fugaz
incomoda muita gente.
Mágoa há nisso a qual assaz
é moeda a mais corrente.

Vida eterna qual doutrina
não nos tira do degredo.
Quem convicto a ensina
pode não ter o seu segredo.

Jamais este está na dor
que do tempo faz tortura
e do espaço maus sendeiros.

O segredo está no Amor
que, no êxtase, se afigura

ter relógio sem ponteiros.

João d'Alcor

sábado, 13 de dezembro de 2014

OS PAIS SEPARADOS E A ESCOLA




Quantas crianças e adolescentes filhos de pais separados frequentam, nos dias de hoje, a escola? Quantas destas crianças e adolescentes podem contar com a participação de ambos os pais na sua educação? As respostas a estas perguntas talvez pudessem ajudar a compreender melhor uma realidade que está a assumir grande relevo na sociedade portuguesa a qual não pode passar à margem das preocupações da escola, na sua relação com a comunidade.
Pretende-se, actualmente, que a escola seja resposta para muitos dos problemas da sociedade e que, directamente, não têm a ver com as tarefas de ensino e de aprendizagem, tais como a alimentação, segurança, apoio social, apoio psicológico... Mas esses problemas são fortes condicionadores daquelas mesmas tarefas de ensino e de aprendizagem! 
 Ora, uma das questões que tem subjacente um desses problemas é a seguinte: será que os pais, pelo facto de estarem separados, deixam de ser pais? Os dados de observação corrente permitem afirmar que, em regra, há uma desigualdade, nos papéis dos progenitores que se encontram separados, nas tarefas de educação dos filhos, sendo o pai, normalmente, o progenitor que mais sai prejudicado na participação nessas tarefas.
Se os filhos, crianças ou adolescentes, têm um pai e uma mãe, estes, apesar das diferenças que os dividiram, dos conflitos que viveram, têm que estar conscientes de que o bem daqueles exige que eles dialoguem, pelo menos, nos assuntos que aos seus filhos diz respeito. Se a criança ou adolescente sentir que os pais, apesar de separados, mantêm um diálogo sobre os seus problemas, lhes dão orientações que não são divergentes mas, antes, concordantes, isso proporcionar-lhe-á maior confiança em si próprio, um sentimento de segurança e de tranquilidade que o ajudará nas suas relações com os outros e no seu rendimento escolar.
Os pais, apesar de estarem separados, devem constituir-se sempre em apoios dos filhos e, em caso algum, usarem estes como armas de arremesso ou de vingança. Tal só iria contribuir para fazer dos filhos pessoas inseguras, temerosas, instáveis, agressivas e…bastante infelizes.


                                                                   Mário Freire

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ÊXITO





Muito há que, em nossa vida,
se afigura cego impasse,
tendo, porém, o desenlace,
em senha antes escondida.

D’ empecilho para à saída,
vale a fé. -  Ao ser tamanha,
tendo em frente uma montanha,
a faz plana, rebatida.

Servir pode de escabelo
uma pedra em que tropeço:
Antes estorvo e após auxílio.

Crer no que há de bom e belo
eis a chave do sucesso
                           e a saída do exílio.

                           João d'Alcor

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

AS ESCOLHAS DE UM CURSO E O FUTURO PROFISSIONAL

                       

Foi publicado um estudo em 2013, pela OCDE, sobre alguns aspectos da educação dos seus países membros. Ora, segundo esse trabalho, está a assistir-se a uma tendência nos jovens, na orientação dos seus estudos superiores, para as ciências sociais, incluindo nestas a economia, a gestão e o direito. Mais: esta tendência continuou a acentuar-se este ano. Em certos países, como na Indonésia, Rússia, México e Hungria, a percentagem de jovens de 18 anos a seguir estes ramos do conhecimento ultrapassa já os 40%!
Discriminando melhor esta grande área, verifica-se que dentro dela há distâncias abissais entre as suas componentes. Assim, os que desejam ir para gestor são em muitíssimo maior número dos que preferem ser sociólogo. Por outro lado, apenas 9% dos jovens ingressam nas chamadas ciências duras (Física, Matemática…). É certo, pelo menos no nosso País, que o ingresso num curso que conduza a uma carreira de investigação científica não tem futuro e muitos dos actuais cientistas encontram-se a trabalhar numa grande precariedade laboral que os está a remeter ou para o desemprego ou para a emigração ou para outras actividades. Nas Engenharias, que fazem a transição entre as ciências puras e as aplicadas, o panorama também não é muito animador, pelo menos em Portugal. Se entre os países da OCDE há 15% de jovens que ingressam num curso de engenharia, em Portugal o desinteresse foi tal que 45 cursos de engenharia ficaram vazios e muitos outros não obtiveram senão um número reduzido de alunos.

É cada vez mais frequente, por outro lado, encontrarem-se diplomados a trabalhar em áreas que não são as da sua formação. As competências de personalidade parecem rivalizar com a formação de base. Enfim, nos dias que correm, onde a imprevisibilidade nos toca amiudadamente, não é aos 18 anos que se estabelece o futuro profissional. Desenvolver, em simultâneo, conhecimentos e competências eis a tarefa que se coloca ao aluno do ensino superior. Depois…as circunstâncias da vida e a sabedoria ditarão o seu futuro.

                                                             Mário Freire

domingo, 7 de dezembro de 2014

LAGUNAS




                                        Ria de Aveiro

Para além dos estuários e dos deltas, as lagunas, representam um tipo de ambiente na interface terra-mar. Referidas também por bacias parálicas, são corpos de água, geralmente pouco profundos, parcialmente fechados ao mar por uma barreira que pode ser de areia (as mais comuns), recifal nos (litorais intertropicais) ou, mais raramente, rochosa. A comunicação com o mar, temporária ou permanente, é feita através de vaus que, no caso das barreiras arenosas, podem fechar e abrir ou migrar para um lado ou para outro. À semelhança dos estuários, muitas lagunas, entre elas, as do litoral português, evoluíram em relação com a transgressão flandriana2; resultaram da evolução de estuários que foram posteriormente fechados por cordões arenosos como, por exemplo, as lagoas de Santo André, Melides, Albufeira e Óbidos. O estuário do Sado ter-se-ia transformado numa laguna se a restinga de Tróia ou eventuais ilhas-barreiras lhe tivessem fechado a embocadura.




                          Lagoa de Santo André (Grândola)





                             Lagoa de Melides (Grândola)




                                  Lagoa de Óbidos.

A Ria de Aveiro é outra laguna que podemos definir como um vasto corpo de água confinado por longo cordão de areia, com a particularidade de conter no seu interior o delta do rio Vouga.



     Ria de Faro-Olhão (Ria Formosa) é um sistema complexo de ilhas-barreiras.



Ria é uma velha palavra portuguesa que significa esteiro ou grande rio, não havendo razão para desaconselhar o seu uso no caso português. Os nomes das nossas rias de Aveiro, Faro-Olhão e Alvor são muito anteriores ao sentido que foi atribuído e divulgado por Ferdinand von Richthofen, em 1886, ao termo ria, atribuído a um tipo de acidente geográfico que definiu como uma “penetração do mar em reentrâncias de encostas escarpadas”, como acontece no litoral da Galiza. Por influência deste prestigiado geógrafo alemão e seus continuadores, a Ria de Aveiro passou então a ser referida, por alguns autores, por Haff-delta ou, simplesmente, Haff, termo alemão que significa laguna, numa comparação com as alemãs no Mar Báltico.
Embora pequenas, são ainda lagunas a Ria de Alvor e a Barrinha de Esmoriz.

As lagunas podem ser de água salobra, salgada ou hipersalgada, consoante as quantidades relativas de água das chuvas e do rios e de água do mar que, de tempos a tempos, as invade. Se a temperatura for elevada e se não houver realimentação em água doce, o que é regra em regiões áridas, as lagunas funcionam como gigantescas salinas naturais, gerando rochas sedimentares classificadas como evaporitos (halite, gesso, anidrite, etc.). No Golfo Pérsico, com temperaturas diurnas na ordem dos 40 Cº e pluviosidade mínima (50 mm/ano), a salinidade da água do mar é de cerca de 47 g/L, valor que sobe, nas lagunas aí existentes, para 70 g/L.

Foram lagunas, em clima quente e seco, as retenções de água do mar, cujos vestígios nos ficaram nas camadas sedimentares da base do Jurássico (andar Hetangiano), referidas, entre nós, por “margas de Dagorda”. Com argilas vermelhas e, às vezes, esverdeadas, gesso e sal-gema, estas formações são bem o testemunho da existência de um “rosário” de lagunas hipersalinas, que marcaram uma primeira penetração das águas do mar ao longo de duas directrizes precursoras da rotura da Pangea e subsequente criação das nossas margens ocidental e meridional. As explorações de sal-gema de Matacães, Fonte da Bica (Rio Maior) e de Loulé e as de gesso, em Santana (Sesimbra), Óbidos ou Soure, representam um legado dessas paisagens de há cerca de 200 milhões de anos.

                                               Galopim de Carvalho

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A FELICIDADE NA PUBLICIDADE





O tema da felicidade tornou-se frequente na publicidade contemporânea, tendo por consequência a eventual banalização e a redução do conceito de felicidade a níveis de ambígua superficialidade e, por vezes, como acontece em determinados anúncios, a níveis de pura manipulação das audiências. Várias são as campanhas de publicidade na televisão que procuram transmitir a ideia de que a felicidade é a coisa mais simples do mundo e que está ao nosso alcance sempre que consumimos um determinado produto. Para sermos felizes bastaria comprar com assiduidade o produto mágico da marca proposta no anúncio e a vida transformar-se-ia em estados eufóricos de publicidade.
Longe vão os tempos em que a publicidade comercial proporcionava algum carácter informativo. Com a crescente proliferação de produtos muito semelhantes disponíveis no mercado globalizado, a publicidade passou a concentrar-se na criação de imagens de marca. A marca passa a distinguir-se não só pela sua suposta qualidade e inovação, mas por criar uma imagem simbólica de prestígio que fideliza os consumidores e sugere estilos de vida com os quais as pessoas são persuadidas e identificar-se. A imagem de marca afirma uma identidade própria para o seu produto, mas também uma identidade ilusória para os respetivos clientes, que se sentem fazer parte de uma comunidade de valores repetidamente expostos como espetáculo nos meios de comunicação social.
Agora já não se trata de destacar as qualidades do produto nem sequer distinguir uma clientela particular, trata-se simplesmente do colar a marca a um conceito universal abtrato e, preferencialmente, a uma emoção positiva forte que obtenha a adesão do público. E que emoção mais universal, intemporal e convincente do que a celebração da felicidade associada ao consumo do produto? Mas cuidado, a felicidade está bem longe de ser um segredo que se conquista através da compra de um produto!

                                       Rossana Appolloni

                                 www.rossana-appolloni.pt

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

EXCEPÇÃO


 



Se excepção confirma a regra,
quanto ao bem, que pena faz:
É o mal, então, que medra;
surge a guerra e falta a paz.


Volvo à regra que, afinal,
bom pode ter ou mau sentido:
Bom, se raro é já o mal;
mau, sendo este o preferido.


Bom é irmos, em primeiro,
bem ao fundo da questão:
É diverso o mundo inteiro?


- Parecidos, sim ou não,
eis o dito mais certeiro:
Somos todos excepção.


João d’Alcor

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A EMPREGABILIDADE JOVEM E O PROGRAMA ERASMUS



Para quem esteja menos familiarizado com temas ligados a este Programa, diria que ele visa, de um modo geral, o apoio ao intercâmbio de professores e alunos do ensino superior. Ele foi criado em 1987, reveste várias modalidades, mas a mobilidade é o seu grande lema. E foi com a mobilidade de alunos que ele ganhou grande visibilidade. O Programa permite que os alunos estudem noutro país membro da União Europeia ou Estado associado por um período de tempo de 3 a 12 meses.
Ora, foi publicado no passado dia 22 de Setembro um importante estudo da Comissão Europeia sobre este Programa o qual foi realizado em 2013, abrangeu 34 países e teve cerca de 80.000 interlocutores (alunos e antigos alunos, professores, estabelecimentos de ensino superior e empresas).
De entre as dezenas de gráficos que acompanham este trabalho, dando conta das múltiplas situações que decorrem da mobilidade dos alunos dos diferentes países, destacaria um tema, pela sua grande acuidade: a empregabilidade.
Foi verificada uma maior empregabilidade dos jovens que participaram neste Programa do que aqueles que não participaram. Por sua vez, 64% dos empregadores iriam considerar a experiência no estrangeiro como um dos factores importantes no recrutamento, enquanto que em 2006 só 37% a consideravam de relevo. O estudo considerou seis traços de personalidade que teriam importância para a empregabilidade: a tolerância à ambiguidade, a curiosidade, a confiança em si, a serenidade, a determinação e a capacidade para resolver problemas. Ora, mais de noventa por cento dos empregadores confirmou a importância destes traços. Foi possível, ainda, verificar, relativamente a estes traços de personalidade, que a média dos antigos alunos Erasmus atingiu valores superiores a 70 %, tendo em consideração o conjunto de todos os alunos.
Uma curiosidade: um milhão de bebés nasceram de pais que se encontraram no decurso do Erasmus, desde o seu início.


                                                  Mário Freire

sábado, 29 de novembro de 2014

EVOCAÇÃO



Recordar é ter acesso
ao arquivo do olvido.
Evocar é um ingresso
ao que fora já vivido.

A memória do passado
faz vivência no presente,
qual erário restaurado
por lavor da nossa mente.

Quando e onde houver História,
os recursos à memória
são motivo de Lição.

Até mesmo a própria Lenda
é, trilhando o que foi senda,
manancial de Inspiração.


João d’Alcor

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A ESCOLA CONFESSIONAL



A escola confessional baseia os seus princípios, objectivos e algumas das suas práticas numa religião. Em Portugal, as escolas confessionais encontram-se, maioritariamente, ligadas à Igreja Católica. Ora, numa escola, seja ela católica ou não, o seu primeiro objectivo é o de ensinar bem. Para isso, ela terá que ajudar os alunos a conhecerem o mundo, a vida e o homem nas suas relações com ele próprio e com os outros, a desenvolverem capacidades motoras, afectivas e cognitivas, a praticarem valores como os da liberdade, da verdade, da responsabilidade...
Na relação educativa, há a considerar aspectos de transmissão e construção de conhecimentos e transmissão e construção de valores. Ora, relativamente aos conhecimentos em matéria científica, os termos compreender e aceitar poderiam funcionar como sinónimos. Alguém, no seu perfeito juízo, rejeita a lei da gravidade? Acontece, porém, que no domínio dos valores confessionais, nem sempre o compreender significa aceitar. Pode compreender-se o marxismo ou, até, a teoria da evolução e, no entanto, não aceitá-los.
A quem ensina exige-se, então, o cuidado de não impor uma convicção sob a capa de ciência ou, reciprocamente, não induzir alguém a acreditar que a ciência pode ser substituída por uma convicção.
Mas, afinal, o que ensinará a mais uma escola para ser considerada de confessional? Ela terá que pautar a sua intervenção junto do aluno por valores específicos da confissão que representa. No caso concreto da escola cristã, ela deveria desenvolver as suas acções e ter uma visão do mundo e da vida em coerência com o Evangelho de Jesus Cristo.
Teve lugar, há pouco, a Semana Nacional da Educação Cristã. Como cristão, penso que a educação, sendo feita segundo aquela perspectiva, contribuiria para quantos nela estão implicados, saírem para a realidade do mundo, orientando, como se diz na Nota Pastoral a ela relativa, para o pleno desenvolvimento da pessoa, crescimento da solidariedade, da relação fraterna e da responsabilidade pelo bem do próximo. Um mundo melhor, certamente, estaríamos a construir!
         
                                       Mário Freire


terça-feira, 25 de novembro de 2014

ESTRATÉGIA




Medo é arma carregada,
pronta sempre a disparar.
Mecha tem ela instalada,
por quem dele se quer livrar.

Medo do medo eis o tição
que nos cabe retirar.
estratégia, em nossa mão
há e fácil de alcançar.

Mais o medo é ocultado,
mor vai ser o seu enredo:
Pesadelo acumulado.

É remédio, quanto ao medo,
mesmo quando camuflado,
abraçá-lo. - Eis o segredo.


João d’Alcor

domingo, 23 de novembro de 2014

UMA ONDA NO MECO




Escolhido o curso e a candidatura aceite, os alunos chegam à universidade, para iniciar uma nova vida académica.
 O que fazem as universidades – as que merecem esse nome, pois é de supor serem locais de transmissão de conhecimentos adquiridos por toda a humanidade – para integrar, como deve ser, os novos alunos? Algumas designam três dias no início do ano lectivo para a sua integração. É então que os caloiros, acompanhados das famílias, dos namorados e namoradas, etc., participam em actividades comuns, ditas praxes, com vista a uma passagem que se pretende ser “cool” ou melhor, suave, para o novo ambiente estudantil.
Em geral, as praxes têm a sua melhor defesa na ideia de que pretendem constituir-se como  um mecanismo que ajude a integração, mais rápida e simpática, dos mais novos com os mais velhos e com a  universidade. Depois, há a questão das formas que vem assumindo: tem havido  tendências  para práticas do tipo iniciático, o que é perigosamente escorregadio.
Mas poderia não ser assim, com as praxes a desenvolver quer actividades lúdicas, quer actividades de carácter social, por exemplo.          
Ficam as praxes das universidades portuguesas. No código das Praxes da Universidade do Algarve pode ler-se: ” A PRAXE é o saber viver bem todo um percurso académico. Significa o respeito mútuo, a camaradagem, a entreajuda, os cerimoniais, o convívio, a integração num meio universitário, completamente novo para todos os novos alunos. A própria palavra latina PRAXIS significa prática, modo de agir.”
Não é isto que se verifica na maioria das universidades portuguesas: práticas primitivas e insultuosas, para quê? É a isto que se chama em Portugal a integração universitária? Que profissionais serão estes, no futuro? Em que quadro moral de referência habitam e se movem?
Do mais degradante que pode haver. Impressiona o que a vontade de pertença a um grupo leva as pessoas (praxantes e praxados) a fazer.
Quando a onda do Meco se esbater da opinião pública, volátil e errante, lá voltaremos ao orgulhosamente sós …


                                                                       FNeves

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O SUCESSO ESCOLAR VIRTUAL

                                   


Costuma designar-se por insucesso escolar a repetência ou retenção, durante um ou vários anos, ao longo do percurso escolar dos alunos. Isto significa que tais alunos não conseguiram atingir os objectivos que tinham sido estabelecidos para o ano de escolaridade que frequentavam.
Passando por cima das diversas causas que subjazem ao insucesso escolar, diria que há uma outra modalidade de insucesso que se traduz não em retenção mas em transição para o ano seguinte. Trata-se do sucesso escolar virtual que, longe de traduzir uma manifestação de aprendizagem por parte dos alunos, de estes terem alcançados os tais objectivos, eles são “empurrados” para o ano seguinte, depois de terem acumulado uma ou mais repetências.
O que está aqui em causa é uma questão estrutural do ensino que, tentando propor um único (ou quase) modelo (de objectivos, conteúdos, estratégias…) à generalidade dos alunos, vai esquecer outros que, pelas suas especificidades, exigiriam objectivos, conteúdos e estratégias de aprendizagem diferenciadas. Muitos destes alunos teriam maior êxito se lhes fossem proporcionados, por exemplo ou um tempo diferente para a aprendizagem ou conteúdos mais concretos ou estratégias mais participativas e proporcionadoras de maior autonomia, não sendo obrigados, assim, a seguir um modelo único. Note-se que, o que está a propor-se, não é uma utopia mas é já uma realidade em muitas escolas, mesmo em Portugal (v.g. Escola da Ponte).  
Não é com 30 alunos numa sala (ou quase), com as limitações de mobilidade e posturais que isso implica, que um professor consegue dar respostas a estes tipos de situações. Surgem, então, problemas disciplinares, repetências, abandonos. No entanto, se se contabilizasse o dinheiro que é gasto nas consequências deste modelo único (ou quase), nas frustrações que produz em professores e alunos, nos problemas pessoais e sociais que suscita, talvez valesse a pena pensar numa maior individualização do sistema, pelo menos no básico. Porventura, muito do sucesso virtual passaria a real e, acima de tudo, haveria uma maior humanização do ensino e uma maior eficácia na aprendizagem.


                                        Mário Freire