terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A TRANSVERSALIDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA


Quem for professor, principalmente nos dois últimos ciclos do ensino básico, e tenha pedido a alunos para ler determinado texto, seja de que matéria for, muitos deles terão dificuldade em fazê-lo com correcção. Se lhes for solicitado para resumirem, oralmente, o que acabaram de ler, a dificuldade aumentará e ela acentuar-se-á ainda mais se tiverem que fazer uma composição escrita do que apreenderam do texto lido.
Não se pretende pôr em causa, com a asserção anterior, o ensino feito no 1º ciclo. Pelo contrário: os professores desse ciclo deparam-se hoje com crianças que vivem imersas num mundo cheio de imagens e sons e em que a escrita, base telemóvel, é cheia de abreviaturas e símbolos, que pouco tem a ver com um texto. Ora, é esse desafio, nada fácil, de domesticar este mundo digital e compatibilizá-lo com um ensino de uma língua materna, a que o professor do 1º ciclo tem que fazer face.
Seja como for, é de inferir que muitos alunos que não possuam um nível adequado nas capacidades de leitura, interpretação e expressão (oral e escrita), tenham dificuldades em aprender. A compreensão dos conceitos torna-se, então, difícil e, mais ainda, a sua aplicação; daí à desmotivação vai um pequeno passo que os poderá empurrar para o insucesso escolar.
Torna-se, pois, crucial para as aprendizagens, o domínio daquelas capacidades, no âmbito da Língua Portuguesa, ao nível do ensino básico. E esse domínio certamente que interessa não só ao professor de Português mas a todos os outros, seja de que disciplina for. Só com uma acção concertada e co-responsável em que possa ser exigido do aluno, em conformidade à sua escolaridade, um uso adequado da língua materna, ele poderá sentir que esta, mais do que uma disciplina entre as outras, é um meio que lhe serve para comunicar, progredir e ter êxito nas aprendizagens das várias disciplinas.


                                                Mário Freire

domingo, 29 de dezembro de 2013

A NOSSA PERSONALIDADE É PLÁSTICA


A personalidade é algo que define cada um de nós no que diz respeito à nossa forma de pensar, de sentir e de agir num determinado meio social. Todos nós temos uma personalidade individual, única, cuja formação e desenvolvimento é um processo gradual e complexo. Exprime-se de formas diferentes – nomeadamente, através do comportamento, do pensamento e das emoções – e a sua organização manifesta-se através de características recorrentes.
Apesar de haver elementos relativamente estáveis ao longo do tempo – os chamados traços de personalidade – a personalidade é dinâmica e vai sofrendo alterações consoante os ciclos de vida. Todos nós aos 40 anos somos diferentes de como éramos aos 20, mas ao mesmo tempo, sentimos que somos a mesma pessoa.
Ao contrário do que se pensava, estudos recentes revelam que a personalidade está em contínua transformação e que não pára na entrada para a idade adulta. Mesmo em idades mais avançadas, a personalidade vai-se alterando. O que é que nos leva à mudança?
O ambiente que nos circunda tem uma influência enorme sobre nós e a nossa forma de responder às situações externas em termos de sentimentos, pensamentos e ações, tem muito a ver com a nossa capacidade de adaptação e de sedimentação do que vamos vivendo. Cada experiência tem sobre nós um impacto, a qual nos pode mudar: um trabalho, os colegas, os amigos, uma relação amorosa, o país onde vivemos, a cultura onde estamos inseridos, a educação, etc. Assim, o nosso desenvolvimento não depende apenas do património genético que herdámos nem do ambiente que nos circunda.
Optamos por viver determinadas experiências, as quais já são fruto de preferências individuais, e essas decisões já vão, por sua vez, ter um efeito sobre nós, o qual pode ser completamente diferente de pessoa para pessoa. Somos seres únicos, com a extraordinária capacidade de mudar, o que nos permite aproximarmo-nos, de dia para dia, do que pensamos e sentimos ser a personalidade que melhor nos exprime.

                                Rossana Appolloni

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

DOMÍNIO



Desde impérios do saber
ao controlo de si mesmo,
há sentidos - São a esmo -
que o domínio vem a ter.

Sobremodo é no poder
em que o termo se esvazia;
perde toda a mais-valia,
quase inferno chega a ser.

Poderio sobre alguém
gera dor, escravidão;
é, um tudo, rumo ao nada.

Bom sentido está no Bem,
progressivo, em adição.
Esta a vera tabuada.

João d’Alcor


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ENSINAR A PENSAR É POSSÍVEL?



Algumas décadas atrás considerava-se o quociente intelectual (QI) como uma entidade fundamental para a predição do êxito escolar. É claro que a sua determinação estaria ligada a um certo conceito de inteligência.
 Sabe-se hoje que a inteligência pode manifestar-se sob múltiplas formas e revestir aspectos com incidências em vários campos. Ela parece ser um conjunto complexo de competências em que a pessoa, numa delas, pode revelar um desempenho que não é, necessariamente, o mesmo nas outras.
Por isso, o QI, embora continue ainda a ser usado, já não tem, presentemente, a absolutização que lhe era atribuído. Além disso, aquilo que parecia ser uma entidade imutável veio, depois, através de múltiplas experiências, a dar lugar à concepção de que as capacidades cognitivas podem mudar, de que é possível desenvolver-se a capacidade de aprender.
Vários programas foram levados a cabo, tendo em vista promover algumas competências cognitivas. A Universidade do Minho e a F. C. da Universidade de Lisboa chegaram mesmo a impulsionar actividades de desenvolvimento cognitivo fora das actividades curriculares. Outros programas, no entanto, apareceram que estão enquadrados nas actividades do currículo, em que os alunos, ao mesmo tempo que aprendem conteúdos disciplinares, põem em actividade novas estratégias de pensar e de aprender.
Pelo menos uma intervenção deste tipo já foi operacionalizada, a título experimental, na região de Lisboa, abrangendo 46 alunos do 6º ano de escolaridade, com baixo rendimento na disciplina de Língua Portuguesa, tomando esta disciplina como instrumento do desenvolvimento cognitivo.
Talvez valesse a pena ler o livro da Mª Helena Salema (Ensinar e aprender a pensar, Texto Editores), pois ele poderia inspirar acções neste campo com repercussões nos domínios pedagógico e social.


                                                              Mário Freire

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O LADO POSITIVO DA CULPA



Já vimos em textos anteriores que o sentimento de culpa é desgastante e, na maioria das vezes, não contribui em nada para o nosso bem-estar. No entanto, este sentimento é essencial para a nossa vida em sociedade na medida em que implica uma autoavaliação, isto é, um julgamento dos nossos próprios comportamentos de forma a termos em consideração o bem-estar do outro aquando das nossas escolhas. Assim, o sentimento de culpa traduz-se por um sinal de saúde psicológica ou moral, importante nas relações sociais. De outra forma, tornar-nos-íamos todos delinquentes e serial killers e viveríamos bem com isso.
O sentimento de culpa provoca o reforço de relações sociais por várias razões: antes de agirmos, tendemos a prever o efeito que a nossa ação causa no outro e no nosso estado emotivo, pelo que ao nos sentirmos culpados podemos optar por não cometer essa ação. Por outro lado, quando nos sentimos culpados, tentamos reparar o dano provocado, quanto mais não seja pedindo desculpa. Ao fazermos isso, estreitamos a relação com o outro. Por fim, tentarmos remediar o dano causado, faz-nos muitas vezes ver e agir além do próprio lesado, tentando fazer bem até a pessoas desconhecidas. Em casos onde é impossível corrigir o que se fez, o sentimento de culpa pode tornar-se insuportável, encontrando forma de expiação em comportamentos de assistência aos outros (o que não significa que por trás de gestos altruísticos esteja sempre um sentimento de culpa latente).
Podemos então concluir que quanto maior a propensão para nos sentirmos em culpa, maior a nossa sensibilidade para com os outros. Temos a preocupação de não provocar sofrimento no outro, agindo de forma prejudicial. O único risco, para o qual é necessário ter muita atenção, é quando nos tornamos vítimas de um sentimento de culpa injustificado. É aí que este se torna desgastante e inútil. De outra forma, façamos um uso positivo deste sentimento tão benéfico a uma vida social mais rica e plena.

                               Rossana Appolloni

sábado, 21 de dezembro de 2013

HOMENAGEM



Não obstante o apetite,
recusar o alimento,
se excessivo, no momento,
é de norma que este se evite.

E, quanto ao ressentimento,
- Por ofensa recebida
de atentado à própria vida -
pôr-lhe cobro traz alento.

Se tal prova nos advém,
grande é sempre a tentação:
O recurso é a vergasta.

Ao pagarmos mal com bem,
qual Madiba na prisão,
livre sermos tal nos basta.

João d’Alcor


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

PALINGÉNESE


       Ciclo petrogenético. (Imagem retirada de sofiablogecn.blogspot.com).



Termo erudito do glossário geológico, palingénese radica nos étimos gregos palim, que quer dizer de novo, e génesis, que significa acto de gerar. Em linguagem vulgar é o mesmo que renascer. O termo foi usado por alguns autores para referir a fase do ciclo petrogenético que conduz à formação do granito por fusão dos sedimentos de que são feitas as montanhas, no seu interior profundo, durante a respectiva formação. Para outros autores, o mesmo processo toma o nome de anatexia (do grego aná, novo, e teptikós, fundir).
Na formação de uma montanha, em consequência do fecho de um oceano e da colisão das massas continentais que o ladeavam (um processo que pode demorar quatro a cinco dezenas de milhões de anos), parte dos sedimentos acumulados nos fundos e nas margens desse oceano e cujas espessuras podem atingir milhares de metros, são forçados a mergulhar algumas dezenas de quilómetros, em profundidade[1]. No referido mergulho, os sedimentos vão ficando sujeitos a temperaturas e pressões cada vez mais elevadas, sofrendo modificações nas respectivas texturas e composições mineralógicas. A tais modificações, quando ainda processadas no estado sólido, convencionou-se chamar metamorfismo e as rochas dele resultantes são adjectivadas de metamórficas. Por exemplo, os sedimentos terrígenos habitualmente referidos por pelitos (argila mais partículas muito finas de quartzo e de outros minerais), quando submetidos a condições moderadas de temperatura e pressão, transformam-se nos conhecidos xistos argilosos e nas ardósias ou lousas. Os que desceram um pouco mais deram origem aos filádios, também chamados xistos luzentes, uma vez que a componente argilosa se transformou em minerais algo brilhantes (ou luzentes), como a sericite, a clorite ou o talco. Mais profundamente, formaram-se os micaxistos e, ainda mais abaixo, os gnaisses.
A profundidades na ordem dos 30 quilómetros, a temperatura pode atingir os 700 a 800 oC, e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas. Neste ambiente e na presença de água (contida na composição das argilas) tem lugar a fusão parcial das rochas, ou seja, a fusão dos minerais menos refractários (quartzo e feldspatos). Entra-se aqui no domínio do ultrametamorfismo e o processo, como se disse atrás, toma o nome de anatexia ou palingénese, dando origem, primeiro, a migmatitos[2] e, finalmente, no caso de fusão total, ao renascimento do granito[3]. Os granitos do soco hercínico[4] (ou varisco[5])
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[1] - Sabemos que o planeta conserva, no seu interior, grande parte do calor original e o que resulta da desintegração de certos isótopos radioactivos, presentes na constituição de algunsminerais (feldspatos, micas e outros) de rochas como, por exemplo, os granitos.

[2] - Migmatito – rocha ultrametamórfica, gerada por palingénese ou anatexia, de que resulta uma composição granitóide, na qual uma parte foi fundida e outra, mais refractária, permaneceu no estado sólido. Ao nível do terreno, situa-se na passagem das rochas metamórficas da catazona, como é o gnaisse,  ao granito franco.

[3] - Em sentido lato, o que inclui a generalidade das rochas granitóides (granitos, granodioritos, tonalitos, etc.)

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português, de norte a sul, são granitos renascidos por esta via, numa orogenia ocorrida há 360-300 milhões de anos.
Quem frequentou a escola nas últimas décadas, talvez se recorde da tectónica de placas, a teoria que fala de continentes à deriva, quais imensas jangadas de pedra, de oceanos que se abrem e que, milhões de anos depois, se fecham. Talvez se lembre do ciclo geotectónico global, proposto pelo geofísico canadiano John Tuzo Wilson (1908-1993), segundo o qual as massas continentais resultantes da fragmentação de um supercontinente se tornam a reunir num novo supercontinente, com uma periodicidade média avaliada na ordem de 400 a 500 milhões de anos, fazendo renascer montanhas. Renascer, porque as rochas que as edificam correspondem à transformação de sedimentos acumulados durante milhões de anos nesses oceanos, sedimentos que resultaram da erosão de montanhas anteriores.
Renascer é um processo que remonta aos primórdios do Universo. Na sequência das explosões das primeiras estrelas, surgidas, segundo se crê, há 12 500 milhões de anos (mil milhões de anos depois do Big Bang), nasceram outras por aglutinação dos respectivos despojos (gases e poeiras) lançados no espaço. O nosso Sol renasceu, assim, de uma estrela anterior, num processo cuja história julgamos poder contar, olhando o céu com os equipamentos adequados.
Os petrólogos falam de magma primário sempre que se referem à lava incandescente a brotar de um determinado vulcão. Adjectivam-no assim porque admitem que ele surge directamente do manto superior, por fusão parcial ou

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[4] - hercínico – ciclo orogénico situado entre o Devónico superior e o Pérmico, representado por diversas cadeias, com destaque para os Urais, Europa do Sul e Norte de África. Na Europa, o orógeno é formado pela soldadura dos escudos Africano e Báltico. Do nome latino da Floresta Negra (Hersynia silva), na Alemanha. O mesmo que varisco.

[5] - varisco o mesmo que hercínico. Do nome dos habitantes da Curia Variscorum, versão latina de Hof, na Baviera.


total deste, sem que tenha havido qualquer contaminação por parte de rochas da crosta. Consideram-no, pois, um magma juvenil, primitivo ou primordial e, por isso, um ortomagma, ou seja, um verdadeiro magma. Porém, não devemos esquecer que a rocha (peridotito) do manto superior de onde ele surgiu por fusão parcial, foi magma nos primórdios da formação do planeta, quando este, segundo se crê, esteve envolvido por um oceano de rocha em fusão. Quando há cerca de 70 milhões de anos a região de Lisboa-Mafra, era palco de intensa actividade vulcânica ou quando, em 1957, surgiu o vulcão dos Capelinhos no extremo oeste da Ilha do Faial, nos Açores, foi, como em todos os vulcões da Terra e em todos os tempos, magma a renascer.
Renascer é uma constante nas histórias do Universo, da Terra e também dos homens. Vem de longe a ideia de renascer. Bennu, a ave da mitologia egípcia, ateava o fogo ao seu ninho e deixava-se consumir pelas chamas, renascendo depois, dos seus restos calcinados. Na Grécia antiga era Fénix que renascia das próprias cinzas. Há um paralelo entre esta ave mitológica e o Sol, que todos os dias morre no longínquo Poente, para renascer na manhã seguinte, do outro lado do mundo, numa alusão da morte e do renascimento da natureza. Na expressão figurativa do cristianismo, o renascer da Fénix tornou-se um símbolo popular da ressurreição de Cristo. Nos nossos dias, “Fénix 2” foi o nome escolhido para designar a cápsula que, numa operação prodígio da engenharia mineira com o selo da NASA, fez renascer, um a um, os 33 mineiros da mina de São José, no Chile, soterrados a cerca de 700 metros de profundidade, em Agosto de 2010.


Momento do resgate de um dos mineiros, em 13.10. 2010 (imagem retirada de cienciahoje.pt)

No final da Idade Média, fazendo a transição para a Idade Moderna, teve lugar em Itália, nomeadamente nas cidades de Florença e Siena, um período marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, em particular nas artes, na filosofia e nas ciências, com evidentes reflexos na sociedade, na economia, na política e na religião, na Europa. Foi a ruptura com as estruturas antigas e em transição gradual do feudalismo para o ideal humanista e naturalista. O historiador, pintor e arquitecto italiano Giorgio Vasari (1511-1547) designou este florescente período da chamada civilização ocidental, por Renascimento, em virtude de ter feito renascer e revalorizar as referências culturais da Antiguidade Clássica..
Renasceram cidades depois de destruídas por catástrofes naturais ou pelas guerras. Renascem para a vida as mulheres e os homens que se libertam dos agentes opressores, sejam eles outros homens ou mulheres ou as tristemente célebres substâncias psicoactivas. Renascem os cravos vermelhos, todos os ano, sem Abril e, logo a seguir, nos campos, as espigas do trigo e as papoilas, ao mesmo tempo que, nas cidades, avenidas, praças e jardins se cobrem de um tapete de pétalas lilases de jacarandás.

                              Galopim de Carvalho








domingo, 15 de dezembro de 2013

DESENVOLVER INTELECTUALMENTE OS ALUNOS



        Ao abordar-se a temática do insucesso e do abandono escolares vêm-nos à mente os défices familiares (relacionais, económicos e culturais) dos alunos assim como os aspectos pedagógicos. Se, muitas vezes, a ênfase é colocada nos primeiros, é certo que as acções que têm lugar na sala de aula e na escola não deixam de ter relevância. Estes temas, aliás, já neste espaço foram abordados.
            Centrar-me-ia, agora, nas relações desajustadas entre alunos e metodologias de ensino e nos aspectos cognitivos que com elas se relacionam. Num livro de Maria Helena Salema (Ensinar e aprender a pensar) estas relações são bem evidenciadas. A autora destaca, ainda, o “abaixamento de ferramentas cognitivas essenciais”. Ora, de entre estas, são salientadas a compreensão, a análise, a síntese, a avaliação, a composição textual pois elas, estando em foco em todas as disciplinas, interferem directamente na aprendizagem escolar.
            Quem tiver feito a sua formação pedagógica nos anos 70 para a docência no ensino liceal, decerto se lembrará de uma tal taxonomia de objectivos cognitivos de Bloom. Ela era constituída por um conjunto de objectivos que visava, precisamente, que o aluno pudesse lidar com níveis mais elevados de cognição que não fossem, apenas, a memorização ou, quanto muito, a aplicação.
A partir dos finais dessa década, contudo, colou-se à referida taxonomia um estereótipo de revanchismo pedagógico, de fazer do estudante um ser programado, identificável apenas pelos comportamentos observáveis, tendo sido, então, abandonada. Depois disso, ela sofreu uma revisão substancial, mantendo-se contudo, a estrutura inicial. Com a publicação revista em 2001, a taxonomia de Bloom como que renasce, não parando o ritmo de publicações que a estudam e a aplicam. 
Serve isto para dizer que na sala de aula podem e devem ser ensaiadas estratégias pedagógicas que façam uso de capacidades cognitivas de nível elevado do aluno e que agora, mais do que nunca, dêem resposta às solicitações que a sociedade de hoje exige e de que a escola não pode alhear-se.


                        Mário Freire

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DOCILIDADE



Evoca a docilidade
luz que vem do coração.
Sem vislumbres de vaidade,
transparece a distinção.

Na meiguice em seu olhar,
longe de escrava submissão,
há o amor que tem p’ra dar;
tudo é prova de atenção.

Vem do dar-se, sem palpite,
o segredo da ternura,
em tal jeito que é sem par.

Surge à guisa de um convite
o modelo da doçura
que não cessa de inspirar.


João d’Alcor

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A ARTE E O ENSINO DA MATEMÁTICA

 
 
 
 
 
       A preparação em Matemática dos alunos, num mundo cada vez mais tecnológico, é um dado que os políticos, os gestores, os professores e os pais têm que assumir. Esta disciplina, para além de proporcionar uma organização lógica da mente, desafia-a constantemente a procurar soluções para os problemas que o desenrolar dos programas vai colocando.
Estudar é preparar para a vida, mas a Matemática desempenha, sem dúvida, um papel importante nessa preparação.
Houve já oportunidade, nestas crónicas, de destacar a Música no combate ao insucesso e ao abandono escolares e a referência a casos concretos, inclusive, em Portugal.
Surge agora uma outra experiência, na Jefferson Elementary School, em Passadena, E.U., de utilização da Arte, agora na forma das Artes Plásticas, para a motivação e recuperação dos alunos em Matemática. Assim, por exemplo, estes foram desafiados a planear e, depois, a executar uma escultura. Para isso, receberam um orçamento e uma lista de preços dos materiais que poderiam usar.
Perante a situação, os alunos confrontaram-se com vários problemas a resolver: de natureza financeira, tendo que apresentar os dados que ilustravam o modo como geriam o orçamento que lhes foi dado; de natureza científica, estudando os conceitos matemáticos que eram necessários para a execução da obra, tais como o de área e de perímetro; de natureza estética, fazendo os ensaios e procurando os caminhos que os conduzissem ao objectivo formulado.
Ora, o projecto foi muito motivador para os alunos, mostrando como a Matemática se relaciona com outras áreas, tendo trazido, para além dos conhecimentos, lições para a vida.
Este projecto teve um financiamento extra. Pergunto-me, no entanto, se não seria possível, na medida dos nossos recursos, desenvolver actividades que, dando maior dignidade às Artes no nosso sistema de ensino, pudessem aproximar a Matemática à vida.
 
                                                     Mário Freire
 
 
 



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

BARBA AZUL E O SEGREDO DO QUARTO FECHADO


      Barba Azul conta a história de um aristocrata rico, muito feio e com uma horrível barba azul. Um dia, ao visitar um dos seus vizinhos, pediu para casar com uma das filhas e a família ficou muito assustada, pois ele já se tinha casado outras seis vezes e ninguém sabia o que tinha acontecido com as anteriores esposas. Acabou por convencer a família e casou com a filha mais nova.
      Após o casamento foram viver para o castelo de Barba Azul. Algum tempo depois, Barba Azul precisou de ir de viagem e entregou todas as chaves de casa à sua esposa, incluindo a de um quarto que ele a tinha proibido de abrir.
      Assim que ele partiu, ela começou a sofrer de uma enorme curiosidade pelo quarto proibido. Contou o segredo à irmã, que a convenceu a entrar no quarto. Ao satisfazer a curiosidade viu o chão do quarto todo manchado de sangue e os corpos das ex-mulheres pendurados na parede. Apavorada, voltou a trancar a porta mas não reparou que o sangue tinha sujado a chave. Quando Barba Azul voltou, percebeu imediatamente o que a esposa tinha feito e, tomado pela raiva, tentou matá-la mas ela conseguiu fugir e salvar-se.
      Esta história serve-nos de ponto de reflexão para as relações que hoje vivemos. Todos nós temos um passado, vivido com outras pessoas, do qual nos devemos distanciar para vivermos novas relações saudáveis. Tentar escavar no passado do outro implica querer entrar num mundo do qual nós não fazíamos parte e que pode ser prejudicial trazê-lo para o presente. Nunca conheceremos a outra pessoa na sua plenitude, é um facto.
      O desafio e a magia das relações é precisamente tentar conhecer o outro no seu presente, pois é nesse presente que nós temos espaço. Conhecer formas de pensar, sentir ou agir do passado e trazê-las ao de cima é meio caminho andado para reviver as mesmas coisas. Ora, se a relação anterior já acabou, será que queremos reviver as mesmas situações ou queremos ter algo diferente? Repetir padrões vai-nos levar sempre ao mesmo sítio. E porque não respeitar os quartos fechados do outro e viver aqueles que estão abertos, agora, para nós?


                                           Rossana Appolloni

sábado, 7 de dezembro de 2013

"MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES"


            Morreu, aos 95 anos, Madiba, assim lhe chamavam, carinhosa e afectivamente, os que o admiraram, respeitaram e amaram. Estamos de luto, de verdade, todos os que puderam conhecer a vida e a obra desta figura ímpar, bondosa, tolerante, sorridente e bonita, moral e fisicamente.
     No dia 11 de Junho de 2008, o deputado António Filipe, do PCP, numa intervenção no Parlamento, por altura da comemoração do 90º aniversário de Mandela, disse para os que não sabiam e lembrou aos interessados em fazer esquecer que, em 1987, há pouco mais de um quarto de século, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos, um apelo para a libertação incondicional de Nelson Mandela, e que os três países que votaram contra foram os Estados Unidos da América, de Ronald Reagan, a Grã-Bretanha, de Margaret Thatcher, e Portugal, de Cavaco Silva, na altura Primeiro Ministro.
         No site da Presidência da República, datada de 5 de Dezembro de 2013, pode ler-se a mensagem de condolências enviada pelo Senhor Professor Cavaco Silva ao seu homologo Jacob Zuma pela morte de Nelson Mandela, que aponta como “figura maior da África do Sul e da História mundial”. Nesta mensagem, o Professor afirma que “Nelson Mandela deixa um extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações”. Realça “O seu exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade”. E acrescenta, lembrando que “A dedicação de Nelson Mandela aos valores da democracia, da liberdade e da igualdade invadiu os corações de todos quantos o admiram, na África do Sul ou em outro lugar, incutindo esperança, mesmo diante dos desafios mais difíceis”.
       O Professor afirma, ainda, que “A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Nelson Mandela e a sua eleição massiva para a mais elevada Magistratura da África do Sul simbolizaram o merecido reconhecimento de um político de causas e uma vitória para os Direitos Humanos no mundo”. Nesta dualidade de posições, flagrantemente antagónicas, duas conclusões se poderão tirar: ou o nosso Presidente mudou radicalmente de opinião ou as palavras que agora subscreve são pura hipocrisia.

                                       Galopim de Carvalho

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A COMUNICAÇÃO DIGITAL ENTRE A ESCOLA, OS ALUNOS E A FAMÍLIA




           Encontram-se a funcionar várias redes comunicacionais assentes em plataformas exclusivamente orientadas para a educação (Moodle, Weduc…). Estas plataformas permitem a partilha de informação entre professores e alunos, professores e encarregados de educação, instituição escolar e família, não deixando de fora outras interacções entre os agentes educativos.

            A eficácia destas redes depende sobretudo da adesão e da disponibilidade das escolas e dos professores em partilharem a informação sobre os alunos com os respectivos encarregados de educação.

            Havendo essa adesão e disponibilidade, é possível os professores darem conta dos conteúdos pedagógicos aos seus alunos, fornecerem-lhes informações suplementares, novos problemas, novos textos e verem, assim, valorizado e ampliado o trabalho que realizam na sala de aula, ao mesmo tempo que incentivam o seu feedback.

Por sua vez, o director de turma pode proporcionar ao encarregado de educação informações sobre aproveitamento escolar, faltas, aspectos disciplinares, normas escolares e outras que ajudarão os pais a desenvolver o seu trabalho de educadores. Igualmente, a direcção da escola tem a oportunidade de contactar a família, dando-lhe as informações que julgar convenientes.

            A interacção digital permite que os pais deixem o seu papel de simples espectadores da vida escolar dos seus filhos e passem a interagir quer com a escola, quer com outros encarregados de educação.

            Estas redes estão a implantar-se, crescentemente, nos vários sistemas educacionais, em diferentes países.

            Dificuldades em levar em frente uma rede deste tipo há, sem dúvida, a primeira das quais decorre do analfabetismo informático de muitas famílias. O mundo, no entanto, mudou e todos nós, queiramos ou não, a ele teremos que nos adaptar!

 

                                                                       Mário Freire

terça-feira, 3 de dezembro de 2013




 

No chão rola uma andorinha.

Fisga houve que a atingira.

Se contorce, sobre si gira,

infeliz. Pobre avezinha...

 

Vitimada e indefesa,

eis que acorre o seu parceiro,

a acudir, qual enfermeiro,

condoído, face à presa.

 

Quão grande é o termo dó:

Seu alcance é sem limites.

Condoer-se é ‘star presente.

 

Dobra a dor no estarmos só.

Face a tal, jamais hesites

no acudir. É sempre urgente.

 

João d’Alcor

 

domingo, 1 de dezembro de 2013

MECANISMOS DE DEFESA



Os mecanismos de defesa são mecanismos a que todos nós recorremos em situações onde nos sentimos ameaçados. Na maioria dos casos, fazemos uso deles de forma inconsciente, isto é, sem serem fruto de uma escolha racional e voluntária. Se temos medo de sofrer um assalto em casa durante a noite, em vez de deixar a porta aberta para enfrentar um possível ladrão, é mais natural fecharmos a porta à chave.

Com os mecanismos de defesa psíquicos acontece a mesma coisa: quando vivemos um conflito interno, na incapacidade de o resolver, adotamos formas de nos protegermos para não os enfrentarmos. Trata-se de uma maneira de reduzir a possibilidade de concretização de uma situação que possa pôr em perigo a integridade do nosso Eu. A questão é que, subjacente a estes mecanismos de defesa, estão determinados medos e quantos mais mecanismos de defesa tivermos para evitar as situações significa que mais medos temos.

Há vários tipos de mecanismos de defesa: fuga (evitar o conflito), projeção (projetar no outro características nossas), racionalização (arranjar justificações racionais para fatores emocionais), repressão (esquecer determinado evento – é frequente quando o trauma é forte, como é o caso de abusos sexuais), formação reativa (adquirir o comportamento oposto ao desejado – por exemplo, o desejo de comer é tanto que a pessoa torna-se anorética), negação (negar fatos), intelectualização (lidar de modo intelectual com o problema), idealização (atribuir ao outro uma qualidade de perfeição), conversão (converter um conflito psíquico em expressões somáticas, como por exemplo dores de cabeça ou sono), entre outros.

Pessoas diferentes utilizam mecanismos diferentes e são formas que encontramos de nos ajustarmos à nossa realidade. Quanto mais conscientes estivermos dos nossos, mais nos apropriamos da nossa capacidade de lidarmos com os medos e de os ultrapassarmos. Como os medos nos impedem de agir, é importante enfrentá-los se desejarmos viver uma vida mais plena.

                                           Rossana Appolloni