domingo, 30 de outubro de 2011

A REFORMA DO SISTEMA EDUCATIVO NA CHINA

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A Reforma do Ensino na China dedica especial atenção à educação profissionalizante e à disseminação de boas práticas. Um sistema de escolas experimentais bem organizadas e ligadas em rede permite atrair os professores mais capazes para encarar novos desafios. Pretende-se que as reformas produzam abordagens pedagógicas inovadoras e um ensino personalizado. O objectivo é oferecer um currículo mais flexível adaptado às realidades locais e profissionais, afastando-se com frequência do que é praticado no ocidente.
Ao contrário do que sucede em muitos países ocidentais, nomeadamente em Portugal, em que o aluno é confrontado com uma grande diversidade de cursos, acabando por fazer opções que, muitas vezes, não se coadunam com o mercado de trabalho, na China existe um processo intensivo de aconselhamento da carreira a escolher. Neste, grupos de alunos podem exprimir e explorar os seus interesses e manifestar as suas capacidades na execução de projectos concretos. Equipas de professores combinam, em seguida, estes resultados com as necessidades laborais. Tudo isto é realizado sistematicamente e cuidadosamente monitorizado para determinar se e como o processo poderá ser ampliado a outras regiões.
A China está investindo recursos substanciais nestas reformas e prepara-se para investir ainda mais na respectiva disseminação por todo o país. Esta mudança política e a forma como os estudantes se manifestam e discutem as suas ideias sobre a educação, revela a forma como a China projecta o seu futuro educacional, preparando a sua população estudantil para uma economia global.

                                                      FNeves

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

VIAS DE REALIZAÇÃO - 4


Via artística

Designando esta como “via artística ou criativa”, Assagioli vê nela “a realização pessoal através da beleza.” A psicossíntese faz desta via, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte, colocando-nos em contacto com a realidade ontológica do ser em que se conjugam o verdadeiro, o bom e o belo. Dá isto lugar ao sentido estético que transforma, eleva e integra a caducidade da forma no domínio do essencial. Insere-se a arte na perenidade intrínseca da realidade onde se conjugam a contemplação com o êxtase e a inspiração com a expressão.
A arte é mãe da originalidade a nível transpessoal e da surpresa a nível da personalidade. Goethe considera que “o artista deve fazer surgir da profundidade do seu próprio ser a forma e o conteúdo.” Porquanto criador, ele é inovador. Tal como Caliban, o personagem de Shakespeare, o artista se opõe, sistematicamente, a ficar refém da ordem estabelecida. O sentido da autenticidade e o apreço pela originalidade o identificam com o que exprime. Ele prefere não copiar nem se copiar. Na opinião de Picasso, “copiar dos outros é tolerável, mas copiar-se a si mesmo é inaceitável.” A arte é gerada no interior de nós mesmos. No seu Symposium, Platão considera que os verdadeiros artistas são aqueles ou aquelas que dão à luz uma nova realidade.  
É no ser, mais do que no agir que a arte se alicerça e se exprime. Roberto Assagioli observa: “Na vida, geralmente, ‘nos damos a permissão de viver’, enquanto que viver é uma arte e devia ser a maior das belas-artes.”  Na sua perspectiva, “a psicossíntese é ciência e arte.” É particularmente pela via estética ou criativa-artística que nos podemos tornar, segundo a expressão de Sergio Bartoli, “os artesãos responsáveis e conscientes da nossa auto-realização.” A responsabilidade faz apelo à vontade, por vezes apontada, na tipologia dos artistas, como deficiente ou intermitente, em vez de abulia pode traduzir insatisfação e porventura rebelião a nível da personalidade, face às dificuldades de expressão. A beleza é considerada uma das características divinas comunicada a tudo que existe. Importa então confiar no domínio transpessoal referido por Alberto Alberti como detentor de “uma experiência de síntese e de beleza.”

                                            João d’Alcor

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

OS MODOS DE CONHECER - 1


                         
                                   Dar tempo para começar a conhecer

            Há uma certa tendência, no nosso sistema de ensino, de fazer programas extensos, que abranjam muitas matérias. Ora, raramente, a quantidade é compatível com a qualidade. Um ensino que vise abarcar muita matéria fica-se, normalmente, pela superficialidade. E o que é superficial, facilmente desaparece. A muita quantidade de matéria implica um aceleramento nas respectivas aprendizagens. Será que aprender bem e depressa são realidades compatíveis? Só as aprendizagens bem conseguidas conseguem ser duradoiras. O facto de haver muita informação para ser aprendida não significa que ela se transforme, necessariamente, em conhecimento. Então, quando é que há um autêntico conhecimento?
            No conhecimento podem estabelecer-se diferentes níveis. Quando, simplesmente, enumero datas, evoco acontecimentos, reconheço pessoas ou situações, enuncio regras, etc., estou a utilizar uma maneira primária de conhecer e ela baseia-se, essencialmente, na memória. Tal não significa que este modo primário do conhecimento tenha menor importância; pelo contrário, ele constitui a base onde irão assentar outros aspectos mais elaborados do conhecimento.
A título exemplificativo, porque é que uma significativa parte dos nossos alunos tem dificuldades em Matemática? Simplesmente, porque eles nem sequer atingiram esse estádio primordial do conhecimento que se baseia, essencialmente, na memória. Eles, não tendo exercitado a memória através da prática do cálculo mental, da memorização da tabuada… ficam impedidos de acederem a aprendizagens posteriores mais complexas que requerem múltiplos automatismos inscritos na memória.
Ora, este primeiro nível do conhecimento requer tempo. Há necessidade de fazer repetições, mostrar um tema segundo vários aspectos para que ele possa ser devidamente evocado em todas as suas características. A partir daqui, começa, então, a construir-se um novo nível de conhecimento. Dele se tratará no próximo texto.

                                                                          Mário Freire

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

EMANCIPAÇÃO



Dentro o pinto quebra o ovo,
dele sai e põe-se a andar.
Deixe o ninho quem é novo,
mal tenha asas p’ra voar.

Parte faz da educação
um princípio de mor monta:
É a emancipação
sempre obtida à própria conta.

Nunca é facto consumado
ser de todo emancipado:
O processo é permanente.

É porém consolador
vê-lo expresso e com fervor,
                                no agir de boa gente.


                                        João d’Alcor

sábado, 22 de outubro de 2011

A FORMAÇÃO EMOCIONAL DOS ALUNOS


Numa das últimas crónicas tratei da formação emocional dos professores. Mas são os alunos os sujeitos fundamentais da escola e é para eles que os professores trabalham e fazem a sua formação profissional. E esta, como então foi referido, incluiria uma componente de formação emocional.
Que preparação deveria ter, então, o aluno para que pudesse enfrentar melhor as múltiplas frustrações que a vida lhe traz e conseguir ser elemento mais feliz e útil para a sociedade?
Um dos aspectos a ter em atenção deveria ser o da valorização das suas próprias experiências de emoções positivas. Valorizar o que proporciona a felicidade a alguém é, também, partilhar dessa mesma felicidade e isso implica um sentimento de solidariedade.
No Colégio de S. Francisco Xavier, em Ponta Delgada, foi levado a cabo um Projecto de educação emocional. Ele parece destinar-se, sobretudo, às crianças. No entanto, com as devidas adaptações, dele julgo poderem retirarem-se um conjunto de requisitos generalizáveis aos alunos do básico e secundário, em contexto de sala de aula. Assim, a alfabetização emocional passaria por:
- criar um clima afectuoso, onde o aluno se sinta aceite;
- não utilizar as emoções para ridicularizar ou humilhar;
- respeitar o facto de não se querer falar sobre o que se pensa e o que se sente;
- proteger o aluno da ridicularização por parte da turma quando ele está com algum problema e abordá-lo em privado;
- perceber que diferentes pessoas têm diferentes emoções e diferentes ritmos;
- eliminar a tendência de corrigir as emoções do aluno;
- perceber que a consciencialização, diferenciação, expressão e gestão emocionais não são um resultado mas sim um processo.
O professor tem, pois, um papel fundamental nas vivências do aluno. Ele pode incentivá-lo, quer a envolver-se nas actividades de forma a sentir emoções positivas, quer a ajudá-lo a lidar com as emoções negativas que determinadas experiências lhe provocaram. Neste último caso, há que ajudar o aluno a definir o que sente, sem tentar adivinhar ou dizer-lhe o que deveria sentir. Além disso, há que relativizar-lhe a situação, estabelecendo limites, definir objectivos e estratégias, em conjunto com o aluno e, eventualmente, com a família, para a resolução da situação.
As emoções são parte integrante da nossa personalidade. Já é altura da escola, a par da preocupação que tem com a inteligência e o conhecimento dos alunos, lhes reservar uma parte do seu tempo. Para bem do aluno e da sociedade!

                                                              Mário Freire


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O INVESTIMENTO NA EDUCAÇÃO


Tem havido nas últimas décadas uma grande expansão do ensino superior em todo o mundo. Em 1995, por exemplo, os EUA constituíam o padrão de comparação no que diz respeito ao sucesso educativo; hoje, os EUA constituem um performer de média dimensão, dado que muitos outros países têm promovido o ensino superior de forma muito mais consolidada.
Num universo de 36 países (34 países da OCDE, Brasil e Federação Russa), cerca de 40 milhões de pessoas perto da idade de reforma possuem formação de nível universitário; esse valor passa a 81 milhões para pessoas prontas a entrar no mercado de trabalho. A situação referida é particularmente importante em certos países, como a China que, neste aspecto, se aproxima rapidamente dos EUA.
Que causas poderão ser apontadas para tal situação? A educação de nível superior traz benefícios económicos substanciais, quer para os indivíduos quer para as sociedades. Nos países da OCDE, uma pessoa com uma educação de nível universitário pode esperar ganhar 50% mais do que uma pessoa com uma educação de nível secundário. Em termos brutos, poderá, ao longo da vida, receber mais algumas centenas de milhar de euros. Pagará, em consequência, mais impostos e contribuições sociais.
Em contrapartida, não completar o ensino secundário, conduz a salários substancialmente mais baixos e a uma maior probabilidade de desemprego. Na crise global de 2008-2009, a taxa de desemprego nos países da OCDE foi em média de 4% comparativamente com os 10% entre aqueles que possuíam apenas formação secundária.
Concluindo, poderemos dizer que o investimento público e privado na educação, compensa não apenas financeiramente, mas também noutros aspectos menos quantificáveis, que é possível identificar na sociedade actual.

                                                                                        FNeves

terça-feira, 18 de outubro de 2011

EDUCAÇÃO


Deus oleiro, porque não?
Tem direito de brincar...
Quem do barro fez Adão
nos inspira a modelar.

Com o sopro do seu beijo,
transformou inércia em vida.
Como é grande o nosso ensejo,
face a argila adormecida...

É função do educador
a de ser despertador
do educando, tendo em vista

quanto é este original.
E daí, passar-lhe o aval:
‘Tens o barro; sê o Artista’.

João d’Alcor

domingo, 16 de outubro de 2011

O ENSINO NA 1ª REPÚBLICA - 13


                                   (a propósito de uma exposição)

               
                                             A Festa da Árvore

            A implantação da República trazia associada, como se viu em artigos anteriores, um conjunto de valores tais como o do amor à Pátria, o de uma maior instrução para as populações, o da fraternidade…
            A Festa da Árvore, associando-se à regeneração da sociedade, vinha dos tempos da Monarquia e tinha sido divulgada pela Maçonaria. Ora a República viu nela um símbolo que poderia ser aproveitado para divulgar as novas ideias e galvanizar as populações para uma nova maneira de estar na sociedade. Por isso, os vultos republicanos deram grande ênfase a esta iniciativa; em contrapartida, as forças que se opunham ao novo regime viam nestas comemorações uma forma de divulgação do novo ideário. Ela, no entanto, constituiu, entre 1913 e 1917, um acontecimento de natureza cívica e democrática, realizado em todo o País e reunindo todos os grupos sociais. A partir desta data, ela foi-se realizando esparsamente até 1936.
            Nesta Festa eram reafirmados os novos símbolos, como a bandeira e o hino, e realçada a importância da escola na formação do carácter e no amor pela Natureza. Além disso, ela deu azo à criação da Associação Protectora da Árvore que contribuiu para o desenvolvimento florestal do País. Esta Associação promoveu conferências, plantações comemorativas, publicação de artigos de jornal, classificação e protecção de árvores notáveis. De salientar, ainda, as Conferências Florestais que tiveram lugar em 1914, 1915, 1916 e 1917 que constituíram um incentivo para a arborização das dunas do litoral e do interior montanhoso.
            Com este último artigo, termina a série O Ensino na 1ª República em que, a pretexto de uma visita a uma Exposição que teve lugar em Lisboa, entre Fevereiro e Junho de 2011, aquando das Comemorações do Centenário da República, se pretendeu dizer, de uma maneira muito resumida, o que se fez (ou pretendeu fazer) no domínio educacional entre 1910 e 1926.

                                                                         Mário Freire

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

VIAS DE REALIZAÇÃO - 3


                                                  Via humanitária

Esta via de realização é também designada “via ética”, e “via do serviço activo”, ou “via de acção social”, dado que especificamente orientada para causas humanitárias. Assagioli lhe dá a designação de “via de serviço humanitário e de heroísmo”, dada a estreia conexão com a via heróica. A diferença é que a via heróica coloca o acento na acção, enquanto que a via humanitária se focaliza no serviço prestado.
A via heróica privilegia o que; a via iluminativa aprofunda o porque; a via humanitária precisa o como, numa perspectiva de uma aplicação altruísta de carácter englobante, que Assagioli ilustra com o cenário de uma entrevista a três talhadores de pedra colocando a exemplificação do sentido humanitário no terceiro entrevistado. À pergunta “o que está fazendo?”, o primeiro contesta, mal humorado: “Não está vendo? Estou picando a pedra.” O segundo responde, entre resignação e lamento: “Trabalhando para sustento meu e da família. Não tenho outro remédio: Por sua vez o último exclama, jovialmente: “Estou a construir uma catedral!” Tirando a lição do caso, Assagioli comenta: “O serviço prestado à humanidade constitui uma das melhores fontes de alegria. O primeiro benefício é o de nos esquecermos de nós mesmos, saindo da cabine de aço da nossa personalidade.” Prova esta via quanto a realização de si mesmo inclui o sentido humanitário que revela uma co-identificação alheia a todo o ensimesmamento de teor autista.
A via humanitária apela para a perspectiva transpessoal que engloba e dinamiza a personalidade num contexto que a ultrapassa. Esta perspectiva é cultivada na filosofia da educação oriental designada “Karma-Yoga” que coloca o serviço prestado em pé de igualdade com a contemplação. Leva isto a concluir, em termos de auto-realização, que o próprio progresso espiritual é incompatível com a privatização. A abertura à dimensão transpessoal vai de par com a abertura aos outros.

                                                                           João d’Alcor

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O ENSINO NA 1ª REPÚBLICA - 12

                                   Ana de Castro Osório 
                             
                               (a propósito de uma exposição)

                                               A Mulher

            “Não há país que avance e progrida se a mulher for nele uma serva perante a lei, uma inferior pela falta de instrução, um valor nulo na sociedade e na família…” Este excerto foi retirado do livro de Ana de Castro Osório A Mulher e a Criança, de 1910. Na verdade, um dos objectivos que esteve na mente de alguns republicanos foi o de alterar a situação das mulheres, que se apresentava degradante face à lei e aos costumes.
            Muitas mulheres empenharam-se e chegaram a acreditar que a República viesse a promulgar legislação que lhes fosse favorável e que o poder de votar lhes fosse concedido. Carolina Michaelis, Adelaide Cabete, Maria Veleda, além da já citada Ana de Castro Osório, foram alguns dos nomes que, nessa época, se destacaram na luta que as mulheres travaram por uma maior dignidade entre os sexos. Mas, infelizmente, elas não conseguiram que a 1ª República lhes reconhecesse os direitos por que lutavam. E isto porque muitos dos políticos e intelectuais que estiveram na base do 5 de Outubro eram anti-feministas. Basta citar alguns dos grandes desse tempo como Teófilo Braga, João Chagas e Basílio Teles.
            Apesar de tudo, com a implantação da República, a mulher consegue obter alguns dos direitos cívicos a que aspirava, tais como
            - a lei do divórcio, passando a ter um tratamento equivalente ao do marido no que concerne às causas da separação legal e aos direitos sobre os filhos;
            - a escolaridade obrigatória dos 7 aos 11 anos para ambos os sexos, embora, na prática, o número insuficiente de escolas impedisse o pleno exercício desse direito.
            Foi ainda debatida a sua educação profissional de modo a permitir-lhe uma integração no mundo do trabalho, através de “centenas e centenas de artigos polémicos assim como de editoriais e primeiras páginas de jornais”, no dizer do historiador João Gomes Esteves.
            A mulher não alcançou, com a 1ª República, a plena igualdade nos seus direitos cívicos e políticos mas ficou o rastro de um combate que, de então até agora, apesar das limitações de circunstância, deu os seus frutos.
    
                                                                                Mário Freire   

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

EMPATIA



Empatia é expressão
d’amor incondicional.
Tem na consideração,
merecido, o seu aval.

Há arcanos de magia
em seu olhos e ao falar.
Reverente, em sintonia,
antes de mais, sabe escutar.

Envolta em dedicação,
é premissa da empatia
que em se dar mais tem p’ra dar.

A servir-nos de lição,
tal é o elo que ela cria
que nos passa a integrar.

                                                           João d’Alcor

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A FORMAÇÃO EMOCIONAL DOS PROFESSORES





Cada vez mais se vai tomando consciência da importância das emoções para a qualidade de vida e saúde das pessoas e para o desenvolvimento da sociedade. A realização pessoal e profissional estão delas dependentes. Por isso, hoje, se fala em inteligência emocional e até já existem técnicas para avaliar o nível dessa inteligência.
Usar os sentimentos para tomar decisões, saber esperar pelos elogios quando se atingem os objectivos, permanecer optimista apesar das contrariedades e obstáculos, conseguir acalmar sentimentos aflitivos de forma a não interromper ou interferir no trabalho, eis algumas das características de quem tem uma boa inteligência emocional.
Sendo este aspecto da personalidade humana tão importante na vida de cada um, a escola não pode permanecer-lhe indiferente. Pelo contrário, ela tem que incidir a sua atenção, a par da consideração pelas componentes cognitivas do aluno, nos aspectos emocionais. Mas estes interessam, também, ao professor. O modo como ele encara as suas emoções e as emoções dos alunos, os comportamentos destes e a maneira de lhes fazer face, assim como a abordagem que faz das matérias, tendo em consideração os referidos aspectos, interferem significativamente no modo de realizar o ensino e, consequentemente, nos efeitos que se produzem na aprendizagem. As muitas investigações efectuadas neste domínio suportam o que se afirma.
Um analfabeto emocional é aquele que não reconhece os seus estados emocionais, não sabendo lidar com eles de forma a melhor adaptar-se à realidade. Ora, um professor só poderá exercer o seu mister de alfabetizador emocional se, ele próprio, tiver consciência do modo como lida com as suas emoções, especialmente as que são susceptíveis de lhe provocarem a frustração, a ira, a melancolia, a ansiedade, o desespero…
Para isso, tentando adaptar as ideias de Goleman, o autor do conceito de inteligência emocional, o professor teria, antes de mais, de desenvolver a capacidade de reconhecer os seus sentimentos, interpretá-los adequadamente, de modo a conduzir a sua vida de uma forma estável e produtiva.  
Depois, haveria que gerar a força para encarar com optimismo a realidade que se lhe vai apresentando, implicando-se ainda mais nas tarefas quando se lhe deparam situações difíceis.
Um terceiro aspecto nesta formação seria o de incentivar a controlar os impulsos, a ansiedade, a ira…É este factor que condiciona o modo como se descarrega o mau humor na pessoa-alvo, como se expressam e controlam as emoções.
Finalmente, haveria que incentivar a capacidade para lidar quer com as reacções emocionais dos outros, quer com as situações emocionais desgastantes. Duas competências poderiam ajudar, no que se refere a este último aspecto: a de se colocar na situação do outro, tentando compreendê-lo nos seus sentimentos e a de se autocontrolar, resistindo aos impulsos, de ser capaz de dizer não perante circunstâncias facilitadoras do sim, de poder adiar uma recompensa imediata, de ser capaz de estar calado perante uma provocação gratuita…
Enfim, ensinar-se a ser emocionalmente inteligente, começa por nós próprios tentarmos sê-lo.
                                              Mário Freire

terça-feira, 4 de outubro de 2011

1911-2011 - CENTENÁRIO DO HINO NACIONAL PORTUGUÊS - 3


                            
                                    Cem anos após: Letra alternativa

Segue a apresentação de proposta de uma letra alternativa que visa, primariamente, suprimir anomalias anteriormente aqui referidas. Deve-se este ensaio à um emigrante com dupla cidadania que vai mantendo o anonimato. No país de acolhimento, mormente face ao embaraço ocorrido na sua tradução, sentiu, relativamente à mensagem do Hino Nacional Português, o ridículo de certas expressões e sobremodo a gravidade do apelo suicida anteriormente neste blog denunciado. A título individual, procedeu a uma composição que prima pela originalidade da inspiração e introduz alterações substanciais relativamente ao texto oficial.  Desde 1995 que, sob registro e pseudónimo cunhada, procede ao envio da sua composição, sucessivamente, a três Presidentes da República Portuguesa: Dr. Mário Soares, Dr. Jorge Sampaio e Professor Aníbal Cavaco Silva. Só este último se dignou, mediante o Chefe da Casa Civil, comunicar, por oficio e  com data de Abril 21-2006, o seguinte: “Acuso a recepção da carta que V. Exa. dirigiu a Sua Excelência o Presidente da República, a qual mereceu a melhor atenção.” 
Tem vindo a ser apresentada, neste blog, uma plêiade de mestres que, na Primeira República, se destacaram como educadores, mau grado as vicissitudes politicas da época. Hoje, como então, outras prioridades estão na opção ou obcecação a nível das esferas politicas. De novo, por certo, pretendem delegar causas como esta, respeitando e quiçá propondo o lema do “é o povo quem mais manda.” Na Grei está o fulcro da Nação e, nos seus educadores e educólogos se deposita certamente a confiança de que, na lealdade e coragem, não abdicam da sua missão. Patriotismo, democracia e liberdade de expressão abrem portas à opção.
Passando à composição referida, segue esta em paralelo de comparação com a letra em vigor. Obviamente que a proposta e liberdade de adopção restam alheias à presunção de cariz oficial. Trata-se, no entanto, de um acto de cidadania responsável lançado, como proposta e aposta numa reforma que, em termos legais, urge e compete ao Governo da Nação promover, salvo plebiscito quiçá oportuno e não só tolerado mas desejado, por parte de um regime inoperante em clima de anomia e depressão. O mote aqui sugerido é Conscientização (Tomada de consciência e acção). Face a alternativas e convicção, perdem validade as escusas. Face à inércia, criatividade. Face à abdicação, iniciativa.


                                    Hino Nacional (Música a mesma)

Letra oficial  (1) ……………………………. Letra alternativa (2)

Estrofes ……………………………………………   Estrofes


Heróis do mar, nobre povo ………………… Tens, Portugal, no teu Povo
Nação valente, imortal, …………………….. chama de um fado imortal.
levantai hoje de novo ………………………… Bem antigo e sempre novo,
o esplendor de Portugal! ……………………. é teu cunho original!

Entre as brumas da memória, ……………….Prosseguindo tua História,
ó Pátria, sente-se a voz …………………….. …será, sim, a nossa vida
dos teus egrégios avós ………………………….um preito à Bandeira erguida,
que há-de guiar-te à vitória. …………………com teus Heróis na memória.

REFRÃO                                                         REFRÃO

Às armas ! Às armas! ……………………………Içada a Bandeira,
Sobre a terra e sobre o mar. ……………     pondo em nós o seu olhar,
Às armas! Às armas! ……………………         solene, altaneira,
Pela Pátria lutar! ……………………………      nos convida a proclamar:
Contra os canhões marchar, marchar! …….   Em prol da Grei, servir, lutar!

Estrofes ………………………………………….Estrofes


Desfralda a invicta bandeira  ………………Nós te queremos honrado,
à luz viva do teu céu! ………………………digno de teus galardões;
Brade à Europa, à terra inteira: …………….companheiro, lado a lado,
Portugal não pereceu! ……………………...no concerto das nações.

Beija o solo teu jucundo …………………..Foi sulcando o mar profundo,
o Oceano a rugir de amor; ………………   que abraçaste a  terra inteira,
e teu braço vencedor ………………………dando, pela vez primeira,
deu novos mundos ao mundo!……………. novos rumos ao velho o mundo.

Refrão ………………………………………… Refrão


……………………………………………. Estrofes

[Sem estrofes correspondentes]…………… Tens Portugal, mundo em fora
    (Texto oficial) ………..                              em tua gente um valor.
…………………………………………………………   Quão dispersa… Mas, embora,
………………………………………………………..   sempre unida em teu amor.
…………………………………………….
…………………………………………………………..O que importa, quando ausentes,
……………………………………………... ………….é teu berço em nossos lares;
…………………………………………………………..quer na terra, quer nos mares,
 ……………………………………………...............saber que nos tens presentes.

………………………………………………Refrão

Estrofes………………………………………….. Estrofes


Saudai o sol que desponta ………………….Há, na saudade que temos,
sobre um ridente porvir; ……………………sonhos de um grande porvir.
Seja o eco de uma afronta ………………….Hoje, jurando, prometemos
o sinal do ressurgir………………………….fielmente te servir.

Raios dessa aurora forte …………………   Teus na vida e teus na morte,
são como beijos de mãe ……………………tua Terra nos sustém,
que nos guardam, nos sustêm ……………...Pátria-Amada, Pátria-Mãe,
contra as injúrias da sorte. …………………Herança, Legado e Sorte.

Refrão................................................  Refrão............................
 

 (1) – Provindo de A Portuguesa, 1890, música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça. Em 1911, a Assembleia Nacional proclamou oficialmente A Portuguesa como Hino de Portugal. Tal como actualmente mantido, é já uma versão, em parte reduzida e alterada, editada em 1957 pelo Governo de Salazar, unificando a letra e adaptando a correspondência melódica.

(2) - Composição mantida sob pseudónimo, acompanhada do seguinte comentário comparativo sublinhando os contrastes com a letra em vigor:

ESTROFES -  O ponto de partida é a identidade da Nação expressa no seu Povo, que não a crise de um espectro que sonha em animar as cinzas do olvido. Não mais a revolta do "brade à Europa", mas o diálogo consumado no seio da União Europeia e num contexto global. Na força e actualidade do argumento, acresce como novidade a inclusão de estrofes alusivas à diáspora lusitana, traduzindo patrioticamente elos de comunicação e factores de inclusão.

REFRÃO – Alheio a represálias de guerra, constitui um apelo contido e altruísta. Trata-se de um responso patriótico, na lógica das estrofes, evocando, como símbolo, a Bandeira nacional e apontando para o dever de servir e lutar em prol do bem comum.

TESE – Constitui a afirmação da nossa vocação histórica, incluindo uma perspectivação construtiva da sua continuidade, efectivamente associada ao processo federativo das nações democraticamente constituído. Ressalta o contraste da versão proposta com a polémica aguerrida e arrogante, baseada em triste fadário agravado pela afronta. Tanto nas estrofes como no refrão, é criada uma sequência coerente na prosopopeia dialogal e não a confusão gerada por um misto de diálogo e aparte. É de notar, por fim, que a métrica da letra proposta se adapta integralmente à música do Hino, musicalidade esta assaz adequada e que não terá sido posta em causa.

                                                                             João d’Alcor

sábado, 1 de outubro de 2011

1911-2011 - CENTENÁRIO DO HINO NACIONAL PORTUGUÊS - 2

                                                
                                             Letra: Teor e enredos

Começaram os hinos por ser, na antiguidade, designadamente na Grécia, alegres poemas declamados e entoados pelos humanos em louvor dos deuses, sendo estes a suposta fonte que os inspirava. Observa o Professor Arnaldo Baptista Saraiva que, no decorrer dos tempos, “muito mudou o conceito de hino, sobretudo quando se inventaram os chamados ‘hinos nacionais’, porque o que era, fundamentalmente, expressão de alegria de viver se transformou, fundamentalmente, em expressão de alegria de morrer – e de matar.”
Muitos são os lirismos, mais ou menos ingénuos, que têm marcado, quase na generalidade, os hinos nacionais. Sirvam de exemplos os seguintes: “Acima de tudo; acima de todo o mundo” (Alemanha). “ Florão da América, iluminando o sol do Novo Mundo” (Brasil).  “O Céu traçou o teu destino” (Canadá). “A terra do homem livre e a casa do herói (Estados Unidos). ”Eu de saúdo, ó mais belo pais do mundo (Suécia).
De permeio com ingénuo patriotismo, não faltam, no léxico de diferentes hinos nacionais, termos de agressividade e violência que seria longo exemplificar. O Hino Nacional Português não constitui excepção. A letra de A Portuguesa, de origem já referida, ultrapassada a interdição, acabou por atingir a craveira de Hino Nacional,  que aconteceu, oficialmente, passado o 5 de Outubro de 1910,  instauração da República, mais precisamente a 19 de Junho de 1911. Caracteriza-se a letra, ainda em vigor, pelo lirismo do “sente-se a voz dos teus egrégios avós”; pelo fatalismo relacionado com “as injúrias da sorte”; pela  revolta, face ao “eco de uma afronta”; pela militância do “Às armas! Às armas!” Como cúmulo e a terminar, surge a substituição de “Bretões” por “canhões”, dando lugar ao apelo suicidário do “Contra os canhões, marchar, marchar!” Tamanho brado histérico se consagrou e continua ainda hoje a ser expresso por adultos e por estes induzido, no mínimo nesciamente, em crianças inocentes.
Nos hinos como nas bandeiras, sem dessacralizações nem tabus, há que respeitar e valorizar o alcance dos símbolos adoptados em termos de ideologia e patriotismo. Ao mesmo tempo, quanto aos hinos nacionais, importa considerar, com Arnaldo Saraiva o facto de que “criados, aparentemente, para fortalecer os sentimentos de unidade nacional, eles acabam por fortalecer apenas sentimentos de isolamento nacional ou social.” Em seu entender, no contexto moderno de Nações Unidas e organizações similares, “a existência de ‘hinos nacionais’ tende cada vez mais por se afirmar, na melhor das hipóteses, como manifestação folclórica, ou como preciosidade arqueológica, na pior das hipóteses, como requintada hipocrisia, ou como insulto e provocação.” Menciona este autor o facto de o Comité Olímpico Internacional se haver já debruçado sobre a hipótese de abolir hinos e bandeiras, no ritual das condecorações dos atletas.
É caso para se pensar em hinos supranacionais como acontece na proposta da União Europeia, iniciativa em parte gorada por nacionalismos extremos. Descabido seria, mormente em diversas circunstâncias e eventos nacionais, conjecturar a abolição do Hino Nacional Português. Manter na letra o que é aberrante afigura-se impensável. Algo diferente foi já seriamente considerado e proposto ao Governo da Nação, em termos que, posteriormente, constarão neste blog.

                                                                                                        João d’Alcor