sábado, 31 de dezembro de 2011

ÁMEN



Junto ao ámen ritual
do final de cada prece,
há um outro cujo aval
é devido e bem merece:

É o ámen dito à vida
que o destino vem ditar,
quando, mesmo à saída,
com a Parca me encontrar.

Quanto ao mundo ao qual vim,
fora ou não eu consultado?
Nada aflora à consciência.

Que, ao partir, seja o meu Sim,
o grande Ámen proclamado,
face ao Céu em evidência.

João d’Alcor

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ESTUDO E SOLIDARIEDADE


               A designação de Associação da fundação estudantil para a cidade nada nos diz, a não ser de que deve tratar-se de algo relacionado com estudantes. Pois bem, esta Associação, criada em França em 1991 por três estudantes, nasceu do desejo de lutar contra as desigualdades nos bairros populares e de estabelecer uma ligação entre dois tipos de juventudes que não se encontravam. Por um lado, existiam crianças e jovens com dificuldades escolares ou sociais e, muitas vezes, excluídos das possibilidades que a sociedade de hoje oferece; por outro, havia estudantes com acesso à informação, à cultura e à mobilidade e que desejavam colocar os seus conhecimentos ao serviço dos mais desfavorecidos.
            Assim nasceu a Afev, uma associação constituída por 7.500 estudantes que intervêm sobre 10.000 crianças e jovens. A acção desta organização estudantil francesa de voluntariado social concentra-se no acompanhamento individualizado, um projecto que reúne um estudante e uma criança ou adolescente, numa abordagem educacional não formal. Os voluntários da Afev podem também investir em projectos colectivos, promovendo essencialmente as noções de cidadania e de solidariedade.
            Estes estudantes voluntários, em colaboração com a escola pública, trabalham em ligação com os professores e directores dos estabelecimentos os quais sinalizam as crianças e os jovens com necessidades de acompanhamento. Mais de 280 cidades estão associadas ao projecto da Afev e cerca de trinta universidades reconhecem o valor do trabalho dos seus alunos neste projecto.
            O princípio deste apoio individualizado consiste em um estudante ajudar um aluno com dificuldades, durante duas horas por semana, no domicílio deste. Estes acompanhamentos são feitos na presença de, pelo menos, um dos pais. O contacto com a família, em contextos sociais por vezes muito difíceis, pode contribuir para fazer compreender melhor o funcionamento da escola. O apoio prestado centra-se nas dificuldades da criança ou adolescente e nas suas necessidades; por isso, ele ultrapassa o quadro meramente escolar, abordando questões como a motivação, a confiança em si, a abertura cultural…
            Eis, pois, um projecto que é, simultaneamente, cultural e de solidariedade que poderia servir de inspiração para as associações de estudantes das nossas escolas superiores. Ensinando os outros, talvez se ganhasse em sabedoria e se aprendesse a ser um cidadão mais consciente das suas capacidades e limitações.
                                                                                                         Mário Freire

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

ALEGRIA



Companheira do Amor,
expressão ela é da Glória,
estandarte da vitória,
sobranceiro à própria dor.

Em sua aura invulnerável,
provas dá de quanto ama,
envolvendo, em sua chama,
mesmo quem não fora amável.

Tal é próprio da Alegria.
Onde um dom de mor valia,
face ao mundo ensombrado?

Superando a utopia,
é varinha da magia
que traz luz ao nosso fado.

João d’Alcor

domingo, 25 de dezembro de 2011

DESENVOLVIMENTO E SOLIDARIEDADE - 3



        Algumas questões que um modelo de desenvolvimento suscita


              Vivemos num país em que os índices relativos à educação, ao acesso aos cuidados de saúde, às vias de comunicação, à esperança de vida, etc….nos colocam num patamar idêntico aos países mais desenvolvidos do mundo.
            Mas este nível de desenvolvimento, tal como nos outros países com que nos comparamos, não impede que ainda haja pessoas que não têm onde dormir.
            Por outro lado, está a tomar-se cada vez mais consciência de que o modelo em que assenta este desenvolvimento não pode continuar a subsistir. O Estado, essa entidade mítica que a todos (ou quase) socorria, está a deixar de ter capacidade de acorrer às necessidades que resultam do funcionamento da sociedade e às dificuldades de cada um.
O modelo de desenvolvimento que subjaz às nossas vidas coloca algumas questões. Assim:
- Será que os processos tecnológicos, cada vez mais sofisticados, e os modos de gestão cada vez menos humanizados, promovem a realização plena do homem?
- O emprego, para além de constituir um meio de sustentação económica individual e familiar e de ser um elemento fundamental de assunção da dignidade humana, é uma das primeiras preocupações dos decisores políticos? Que medidas têm eles tomado para que impeçam o crescente aumento do número de desempregados?
- Que tipo de desenvolvimento é este que permite que os chamados investidores bolsistas, num jogo de milhões de compra e venda, pouca riqueza produzam aos países, não criem emprego, desregulem economias, tendo, apenas, como objectivo o lucro?
- A taxa elevada de desemprego, especialmente a dos jovens, é de carácter transitório ou tende a transformar-se em realidade estrutural e permanente? Que futuro se lhes está a proporcionar?
 - As qualificações disponíveis no mercado de emprego são as que se adequam às carências da sociedade?
- A precariedade no emprego é um acidente que decorre de uma conjuntura económica ou é uma realidade estrutural que vai permanecer?
- Em que medida o aumento da longevidade está a conduzir a um acréscimo dos anos de serviço efectivo no exercício de uma profissão e que consequências isso pode ter para a redução do número de postos de trabalho para os mais jovens?
            - Por outro lado, como é que esse aumento de longevidade e a redução da natalidade tendem a diminuir, por parte dos Estados, a quantidade e a qualidade das respostas quer ao nível da saúde, quer da segurança social?
            Eis algumas questões que este modelo de desenvolvimento suscita, atendendo apenas às realidades económicas que o envolvem, e de cujas respostas talvez se abrissem caminhos para a resolução dos problemas enunciados. Questões há, porém, de outra natureza, que serão tratadas em crónicas posteriores, que são contribuintes para as situações difíceis que se estão a viver.
            Situando-nos na realidade económica, é nas empresas de sucesso, especialmente nas PME, a quem o Estado cabe fomentar e apoiar, que tem que se centrar a resolução de muitos dos problemas enunciados. Elas, além de procurarem os lucros para a satisfação dos seus compromissos e de se expandirem, procurando novos mercados, têm a função patriótica de contribuírem para a diminuição do desemprego e de financiarem o Estado com os seus impostos. Os seus empresários devem merecer todo o apoio e respeito. Não seria possível, porém, entre os objectivos estratégicos que essas empresas definem, relevarem ainda mais a importância do trabalho humano como factor de desenvolvimento pessoal e social, ainda que diminuíssem um pouco os seus lucros?
                                                                                      
                                                                                         Mário Freire

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO PARA O BEM-ESTAR E O PROGRESSO SOCIAL - 3



Nos dias de hoje, sublinha-se, cada vez mais, a necessidade de valorizar indicadores não económicos, do bem-estar e do progresso social tais como: a melhoria da saúde, a sociabilidade, o reforço da participação cívica e a prevenção da obesidade e da criminalidade.
A educação, apoiada em actividades desenvolvidas em ambiente escolar, tem um efeito positivo sobre a maior parte destes factores de progresso social.

Os responsáveis/decisores em termos de políticas educativas e os professores podem contribuir para melhorar a saúde e a coesão social…
           Os responsáveis/decisores em termos de políticas educativas e os professores, são obrigados a satisfazer os critérios que definem o sucesso escolar: a melhoria dos resultados obtidos pelos alunos, a melhoria da qualidade dos programas e dos métodos pedagógicos ou ainda a capacidade para responder às necessidades das crianças provenientes de meios culturais e linguísticos diferentes.
            A pressão aumenta sobre os responsáveis das políticas educativas, que devem melhorar as performances dos sistemas de ensino, apesar dos recursos públicos limitados. Parece, no entanto, que não será necessário fazer muitos grandes investimentos na reforma dos programas ou na formação dos professores, nem reduzir o tamanho das turmas. Algumas mudanças no ambiente de aprendizagem (valores e filosofia do funcionamento das escolas), acompanhados de ajustamentos ao nível das actividades escolares e extra-escolares, poderão favorecer a aprendizagem pela prática da cidadania activa, dum modo de vida saudável e dum regime alimentar equilibrado.

… mas o sucesso dos seus esforços, depende igualmente da coerência das políticas e das medidas, visando promover o bem-estar e o progresso social. Daí, a necessidade de agir numa escala pangovernamental.
As iniciativas desenvolvidas em ambiente escolar, tendo em vista a promoção do bem-estar e do progresso social, têm maiores possibilidades de sucesso se o ambiente familiar e a comunidade em que crescem as crianças estão em fase com a aprendizagem efectuada na escola. Daí a necessidade de adoptar uma abordagem global, em que cada uma das partes esteja perfeitamente consciente das suas responsabilidades.
            A coerência das políticas supõe que os governos favoreçam as escalas horizontais (entre os Ministérios da Educação, da Saúde, da Família e dos Assuntos Sociais), verticais (entre o poder central e as administrações regionais e locais) e dinâmicas (entre os diferentes níveis de educação). Só a optimização das estruturas referidas, poderá fazer emergir a estratégia pangovernamental, necessária ao progresso social.

                                                                      FNeves

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

AMIZADE


É tesouro todo o Amigo,
ou Amiga de verdade.
Grão valor o da Amizade;
descrevê-la não consigo.

Casa a vida com a Vida,
no afecto com alguém.
A valia que contém
ultrapassa quanto eu diga.

Nada excede, quanto a mim,
o alcance dessa estima.
Nem tem meças, afinal.

Na amizade há sempre um sim,
em que um ser com outro rima,
no que há de mais vital.

João d’Alcor

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DESENVOLVIMENTO E SOLIDARIEDADE - 2


      Robert Schuman -  Uma referência de solidariedade para a Europa

Numa altura em que a Europa caminha um pouco à deriva, sem ter líderes que façam ressaltar aqueles valores que marcaram o sonho europeu, vale a pena recordar Robert Schuman.
Este político francês, ministro das Relações Exteriores, cinco anos após o termo da II Guerra Mundial, propôs aos Estados que tinham combatido que pusessem em comum a produção de carvão e de aço.
Ele pretendia assegurar uma paz duradoura. Exerceu, então, o seu empenho político como um apostolado, aplicando na vida pública os mesmos princípios da sua prática cristã. Ele experimentou as consequências da inimizade franco-alemã. Por isso, em 9 de Maio de 1950, Robert Schuman afirmou que “a paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criadores à medida dos perigos que a ameaçam. A contribuição que uma Europa organizada e viva pode dar à civilização é indispensável para a manutenção de relações pacíficas”.
É a partir de realizações concretas que a solidariedade tem que ser afirmada. Por isso, ele propõe subordinar o conjunto da produção franco-alemã de carvão e de aço a uma Alta Autoridade, numa organização aberta à participação dos outros países da Europa.
E continua Schuman com a sua declaração: “Esta produção será oferecida a todos os países do mundo sem distinção nem exclusão, a fim de participar na melhoria do nível de vida e no desenvolvimento das obras de paz. Com meios acrescidos, a Europa poderá prosseguir a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano. Assim se realizará, simples e rapidamente, a fusão de interesses indispensável à criação de uma comunidade económica e introduzirá o fermento de uma comunidade mais vasta e mais profunda entre países durante muito tempo opostos por divisões sangrentas”.
Mais adiante, Robert Schuman avança que estas seriam as primeiras bases para a concretização de “uma federação europeia indispensável à preservação da paz”.
A partir daqui, gerou-se uma nova dinâmica de cooperação em vários domínios entre os países europeus a que os Tratados de Roma, em 1957, de Bruxelas, em 1965, de Maastricht, em 1992 e de Lisboa, em 2009 tentaram dar corpo a uma União onde a paz e a justiça social pudessem ser uma realidade.
Muito se avançou, é certo, em muitos domínios das infra-estruturas, ciência, educação e cultura entre os Estados-membros da União. Mas, nos dias de hoje, assiste-se a que cada líder europeu se preocupe mais com os resultados eleitorais no seu próprio país do que com os problemas que este capitalismo exacerbado, comandado exclusivamente pelo lucro, irá produzir na expansão da pobreza, no declínio da igualdade de oportunidades e na diminuição do emprego.
Onde se encontra aquele sonho de Schuman de fazer da Europa “uma federação europeia indispensável à preservação da paz”, quando no seu interior se semeiam sementes de violência que conduzem à guerra? Onde está o desígnio de contribuir para o desenvolvimento africano quando os que dele fogem, devido à fome e às guerras, são enclausurados e remetidos para a origem?
Robert Schuman (um visionário para uma nova Europa?) foi, pois, um homem que conseguiu ser coerente entre o que a sua fé de cristão lhe ditava e o que a sua prática de político lhe impunha. Alguém que bem poderia ser uma referência para os políticos dos nossos dias!

                                                     Mário Freire

sábado, 17 de dezembro de 2011

CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO PARA O BEM-ESTAR E O PROGRESSO SOCIAL - 2



Nos dias de hoje, sublinha-se, cada vez mais se torna necessária a valorização de indicadores não económicos, do bem-estar e do progresso social tais como: a melhoria da saúde, a sociabilidade, o reforço da participação cívica e a prevenção da obesidade e da criminalidade. A educação, apoiada em actividades desenvolvidas em ambiente escolar, tem um efeito positivo sobre a maior parte destes factores de progresso social.

Mas, a educação não saberá, sozinha, desempenhar o seu papel social…
As crianças passam apenas metade do seu tempo útil na escola. Por essa razão, a eficácia das medidas tomadas pelos responsáveis políticos, pelos professores e pelos administradores escolares pode estar comprometida quando o ambiente familiar e a comunidade, na qual as crianças crescem, são desfavoráveis. Por exemplo, as actividades escolares para promover uma higiene de vida e hábitos saudáveis, arriscam-se a não dar frutos se as crianças têm acesso fácil à comida rápida quando vão para a escola ou se dedicam a actividades sedentárias quando estão em casa.
Da mesma maneira, as acções organizadas em meio escolar, tendo como objectivo formar os cidadãos activos do amanhã, têm poucas probabilidades de serem eficazes, se as comunidades locais não derem oportunidades às crianças de participarem em actividades cívicas ou se as crianças só raramente discutirem assuntos públicos com os seus pais, tendo em vista o reforço dos seus princípios cívicos. Se alguns, são desviados para práticas perigosas para a saúde fora do quadro escolar (alcoolismo ou tabagismo, por exemplo), os efeitos negativos podem transmitir-se aos colegas. É pois evidente, que os pais e os actores da comunidade local, devem esforçar-se em apoiar as acções organizadas em ambiente escolar.

… e o seu potencial será limitado, se as competências cognitivas, sociais e emocionais dos indivíduos não forem desenvolvidas desde a infância.
A aquisição das competências chave é mais fácil mesmo antes do início da escolaridade. O ambiente familiar pode também permitir às crianças integrar desde a mais tenra idade a base das competências cognitivas, dos reflexos positivos, dos hábitos saudáveis e outras características positivas tais como a auto estima.
            As crianças que entram na escola primária, tendo adquirido estas competências, conseguem desenvolvê-las e adquirir outras de ordem superior. É facto assente que numerosas crianças, sobretudo as que provêm de famílias desfavorecidas, não têm possibilidade de viver num ambiente familiar de qualidade e de receber desde a mais tenra idade uma educação sólida. Por uma questão de equidade, as políticas educativas devem ter em vista a redução das carências dessas crianças, que não desenvolveram desde cedo essas competências.

                                                                                                 FNeves



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

AGRADECIMENTO



Tão normal é sermos gratos
pela vida e, nela, a quem
nas palavras e nos factos
vem de encontro ao nosso bem.

Termos há e variados
de expressar a gratidão.
Serão eles, quando usados,
ponderados de antemão?

Obrigado e obrigada,
eis a forma tão usada,
mas que evoca obrigação.

Preferível, quanto a mim,
o Bem-haja. Esse, sim,
vai directo ao coração.
           
      João d’Alcor

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A MATEMÁTICA: DISCRIMINADOR SOCIAL?


Muitos cursos há em que as perspectivas de emprego estão quase fechadas. Direito, Psicologia, Antropologia, Sociologia, Jornalismo, são alguns dos muitos exemplos desses cursos que têm como destino muito provável dos seus possuidores o desemprego.   Seria interessante fazer-se um inquérito entre os alunos do 9º ano, aqueles a quem se coloca um primeiro patamar da escolha profissional, e indagar dos critérios que eles utilizam para escolher a área de estudos a prosseguir. Julgo que não erraria muito se afirmasse que a Matemática seria um desses critérios. E não pelas melhores razões! Quero dizer com isto que determinadas actividades profissionais são, desde logo, excluídas pelos alunos por elas exigirem como requisito o saber-se Matemática ou, o que significa quase o mesmo, por esta disciplina constituir-se como um instrumento de trabalho num curso a frequentar ou numa profissão a exercer.         
            Ora esta disciplina é determinante para a escolha vocacional pelo facto de muitos alunos, na altura devida, não terem aprendido os automatismos que lhes permitiriam a resolução de operações mais complexas; por ignorarem os fundamentos da aritmética que, depois, os inibe de encontrar a solução daquele pequeno problema que uma vendedeira de mercado, com mais de 50 anos, faz de cabeça.
            Esta situação actua, então, como um poderoso discriminador profissional e social. Eles auto-excluem-se de múltiplas profissões que hoje tão necessárias são para o desenvolvimento tecnológico de um país. A não existência dessa lacuna do conhecimento conduziria, certamente, a um acesso mais fácil ao emprego e, consequentemente, ao exercício de uma actividade profissional que melhor os satisfizesse.
            Não se põe em causa, é evidente, a ida de alunos para as áreas das Ciências Humanas e Sociais. Mas essa ida deveria decorrer de um desejo efectivo de as estudar e não de um último recurso a que se tem que recorrer pelo simples facto de elas não exigirem a disciplina de Matemática no seu acesso.
            Habilitar o aluno do Ensino Básico com conhecimentos e capacidades básicas nessa disciplina, para além de o ajudar a estruturar o pensamento, é contribuir para o alargar dos seus horizontes profissionais e dar mais hipóteses ao desenvolvimento do País.
            Há, pois, que combater o flagelo do insucesso em Matemática. Nem sempre as acções mais espectaculares são as mais eficazes. Por mim, proporia uma medida muito simples para ajudar neste combate e que, simultaneamente, implicaria uma poupança: a proibição do uso da máquina de calcular no Ensino Básico. Esta medida não iria resolver a ignorância a que se assiste em Matemática. Ela, no entanto, poderia contribuir para que o aluno tivesse uma maior intimidade com os números e, assim, conhecendo-os melhor, quisesse vir, no seu futuro, a lidar mais com eles.
                                                                                Mário Freire

domingo, 11 de dezembro de 2011

CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO PARA O BEM-ESTAR E O PROGRESSO SOCIAL - 1


Nos dias de hoje, sublinha-se, cada vez mais se torna necessária a valorização de indicadores não económicos, do bem-estar e do progresso social tais como: a melhoria da saúde, a sociabilidade, o reforço da participação cívica e a prevenção da obesidade e da criminalidade. A educação, apoiada em actividades desenvolvidas em ambiente escolar, tem um efeito positivo sobre a maior parte destes factores de progresso social.

A educação dá às pessoas, os meios para desenvolver os seus conhecimentos e as suas competências cognitivas, sociais e emocionais, mas também de adoptar os costumes, os valores e os princípios que sustentam um modo de vida saudável e uma cidadania activa.
As pessoas instruídas são mais capazes de tomar decisões esclarecidas e pertinentes porque a educação lhes permite aceder à informação, melhorar as suas competências cognitivas e reforçar certas aptidões sócio emocionais, tais como a determinação, a auto estima e as relações interpessoais.
            A educação, pode ajudar os indivíduos a adoptar um modo de vida mais saudável, a interessar-se mais pela política e também a compreender o papel da mobilidade das pessoas, como contribuição importante para uma sociedade equilibrada.
O ambiente escolar constitui o quadro ideal para levar as crianças a adoptar uma vida saudável e a interessar-se pela vida pública. Por exemplo, o facto de serem servidas refeições equilibradas nas cantinas escolares, completadas com sessões de esclarecimento de modo a sensibilizar os alunos para os benefícios de um regime alimentar equilibrado, pode ajudar as crianças a optar por uma alimentação saudável.
            Da mesma maneira, a participação cívica pode ser reforçada, graças a um clima de ensino aberto, a cursos de educação (cívica) baseados em casos práticos ou ainda a uma filosofia que favoreça a emergência de uma cidadania activa, desde criança.

                                                                  FNeves

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

AGENDA


Minha Agenda que desfolho,
que consulto em cada dia,
diz-me sempre, quando a olho:
‘Que saudades eu sentia…’

Do labor ou do lazer,
ela atempa seus recados,
advertindo, com prazer:
‘Não estejas em cuidados!’

Sempre atenta; que descanso...
Mais nos anos eu avanço,
mais a sei apreciar.

Ela e eu, que grande equipa!
Em cuidados nunca fica
quem na Agenda confiar.

      João d’Alcor

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

DESENVOLVIMENTO E SOLIDARIEDADE - 1


                                            Os cristãos e a política

            Teve lugar em Fátima, em Setembro de 2011, o XXVII Encontro da Pastoral Social. As intervenções que nele tiveram lugar giraram em torno do lema Desenvolvimento Local, Caridade Global.
Os temas ali debatidos não poderiam ter maior oportunidade do que agora, altura em que se começa a sentir o avolumar de privações sobre muitos e em que as nuvens negras que se avistam indiciam piores dias ainda.
Ora, um dos temas ali debatidos foi o da participação política dos cristãos. É certo que a imagem que se tem dos políticos não lhes é muito favorável. Será que o exercício da política é incompatível com o ser honesto e, muito menos, com o ser cristão? As tentações que decorrem do exercício do poder são de tal modo poderosas que impelem um cidadão a abdicar dos valores da verdade e da probidade? E o cristão, chegado ao poder, logo esquece o valor evangélico do amor ao próximo?
Não existe uma política cristã. Mas se há políticos que se dizem cristãos, estes devem ser pessoas verdadeiramente empenhadas no Bem Comum, conscientes de que os actos públicos e privados que praticam terão que ser coerentes com os valores que proclamam. As respostas que encontram para os problemas que lhes são colocados, e que irão afectar muitas pessoas, deverão ter como referência os princípios que professam. Por isso, penso que uma das maneiras mais nobres de ser cristão seria a de ser político.
Um cristão que é político tem que tentar colocar a dignidade humana, de uma maneira empenhada, seja no acto legislativo ou executivo, no centro da sua acção. E a dignidade humana tem a ver com o trabalho para todos os que estão em idade activa, em condições devidas, com a igualdade de oportunidades, tentando desenvolver os talentos que cada um recebeu, pondo-os ao serviço da comunidade, com a diminuição das desigualdades sociais, com a protecção dos mais fracos…
A Doutrina Social da Igreja, nestes momentos de crise, poderia ser uma referência inspiradora para a humanidade em geral, e para os políticos em especial, de modo a tornar o mundo menos egoísta e mais disponível para a prática da fraternidade humana.
                                                                        
                                                                        Mário Freire

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

VIAS DE REALIZAÇÃO - 8




                                                      Conclusão

A realização, quer pessoal quer colectivamente considerada, é composta de todas as vias, previamente aqui apresentadas, a conjugar em regime de complementaridade. Figuradas numa pirâmide de sete faces, estas podem representar, na base, uma certa distância e coloração mais ou menos contrastante. Porém, à medida que se aproximam do topo, progride a evidência da união e da síntese. Na perspectiva da psicossíntese, elas podem ser vistas, como observam John Firman Ann Russel como “o relacionamento dinâmico e contínuo entre o eu pessoal e o Eu transpessoal, mediante todas as experiências da vida.” A este relacionamento individual há que acrescentar a observação de Roberto Assagioli, ao dizer que “a realização é sem fim: do pessoal ao transpessoal, do transpessoal ao Eu do grupo, e deste ao Eu universal.”
A via não é algo, mas sim alguém. A filosofia Zen considera inseparáveis o alvo e o archeiro. A psicossíntese assenta o eixo da abordagem psicológica no fulcro existencial. A nível pessoal, há o sentido de espaço e de tempo entre o archeiro e o alvo. Psicologicamente, são factores a considerar num processo que vai da realização pessoal à realização transpessoal, sendo que o Eu transpessoal pertence ao domínio do eterno e do infinito. Com o desenvolvimento e expansão da cibernética se vai processando e vivendo progressivamente uma experiência sintética da realidade que leva a compreender, em termos existenciais, a convergência e conversão do passado e do futuro no aqui e agora. O recurso à meditação, mais e mais divulgado, está sendo um factor de progresso de particular alcance no qualitativo do viver e no impacto desta experiência.

                                                              João d’Alcor

sábado, 3 de dezembro de 2011

O ACOMPANHAMENTO DOS FILHOS



Costuma dizer-se, nos dias que vão correndo, que os pais pouco acompanham os filhos nas suas vidas, dentro e fora da escola. E, para isso, encontram-se várias justificações: stress da vida diária, falta de tempo, preocupações de natureza financeira, funcionamento familiar perturbado, confiança dos pais no sistema de ensino que permite a passagem de ano dos seus filhos (quase) sem estudar...
            Ora, se os filhos são ainda crianças e adolescentes, nenhuma destas razões enunciadas, per se, consegue ser suficientemente forte para justificar tal falta de acompanhamento, embora circunstâncias adversas da vida a possam compreender.          
Acontece que o acompanhamento escolar da parte dos pais não implica, necessariamente, que eles saibam as matérias que os filhos andam a estudar. Diria, até, que são as tarefas que não exigem esse conhecimento as que maior importância têm. Assim, o que pode impedir os pais de, à hora de uma das refeições, solicitarem dos filhos que digam o que de significativo se passou dentro e fora da sala de aula? Fazer perguntas sobre colegas e professores e sobre aquilo que andam a estudar nas diferentes disciplinas é um modo de os pais acompanharem a vida escolar dos filhos. Questioná-los sobre os amigos que têm é tentar compreendê-los para melhor os ajudar.
            Claro que o colocar estas e outras questões relacionadas implica circunstâncias que, infelizmente, nem sempre são fáceis de reunir. Assim, os filhos tomam as refeições ao mesmo tempo que os pais ou, pelo menos, com um dos progenitores? Se tal acontecer, há ambiente minimamente adequado (TV desligada, telemóvel ausente, MP3 longe, consola distante, iPod guardado…) para que as perguntas possam ser feitas e cabalmente respondidas? Existe uma autoridade suficientemente madura que permita ouvir as respostas, mesmo as mais surpreendentes ou inadequadas, sem que as emoções saltem de imediato, inibindo, assim, à partida, qualquer abertura ao diálogo com os filhos? Existe uma sabedoria suficientemente evidente que permita retirar dos acontecimentos relatados as conclusões devidas? E brincar ou jogar com os filhos, num ou noutro fim-de-semana, dar um passeio a pé, contar uma história, são actos impossíveis de realizar?
            Enfim, as pequenas coisas de um dia a dia numa família minimamente funcional que podem contribuir para gerar pessoas felizes e cidadãos responsáveis!

                                                                                                  Mário Freire

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

AFIRMAÇÃO



O conceito que primeiro
fora, em mim, bem inculcado
tem a ver com o pecado,
dele forçado a ser herdeiro.

Preciosa intuição
me levou a por de lado
 postulado tão pesado,
atrelado ao coração.

Mais importa a conclusão:
Proveio ela, a tempo inteiro,
do penhor da Redenção.

É perene a afirmação
do Bom, Belo e Verdadeiro
que sou eu e todos são.

João d’Alcor

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O IMPORTANTE E O URGENTE



Confundem-se, frequentemente, as situações importantes com as situações urgentes. Mas, pior ainda, é muitas vezes ao nível do Estado que essa confusão se torna mais saliente e com resultados mais desastrosos.
            Uma situação importante necessita de tempo e de estudo para ser realizada. Por isso, um teste escolar, mas também um outro qualquer acontecimento de relevo de natureza pessoal, profissional…, que exija planeamento, contactos a efectuar, etc., e com data marcada, tem que ser preparado com tempo. Ir adiando a preparação desse acontecimento significa torná-lo urgente. Ora, é sabido que nas urgências (não se fala nas de natureza médica, efectuadas em ambiente hospitalar, porque essas deverão estar devidamente planeadas) atacam-se as situações de improviso e com o que estiver à mão. Contudo, quase sempre o improviso e o que está à mão constituem a pior maneira de resolver os problemas.
            A escola poderia ser, então, um espaço privilegiado para se ensinar a prática da distinção entre importância e urgência. O aluno deveria aprender que há tarefas, como a realização de um teste que, sendo importantes, exigem um tempo de preparação. E esse tempo não pode reduzir-se a uma hora (quantas vezes, nem isso!) na véspera. Ora, essa aprendizagem, sendo eleita como prioridade no desenvolvimento escolar e pessoal, seria monitorizada através da acção da própria escola.
            A família, igualmente, deveria constituir-se como um reforçador desta atitude de responsabilidade perante uma tarefa que, com prazo, tem que ser realizada na escola mas, também, em qualquer outro ambiente e de outra natureza.
            Quando o Estado, nas diferentes formas que ele assume, nem sempre dá exemplos de preparação e de planeamento, perante decisões de interesse nacional, regional ou local, poderá exigir-se das famílias e dos alunos que tomem decisões adequadas, devidamente ponderadas, em tempo oportuno?

                                                                                                 Mário Freire

domingo, 27 de novembro de 2011

VIAS DE REALIZAÇÃO - 7



                                                        Via ritual

Dita também “via cerimonial” e “via organizacional”, a via ritual tem sido particularmente cultivada no Oriente, através da disciplina mudra, e, no Ocidente, nas liturgias religiosas. Os mudras são gestos corporais sobretudo utilizados nos rituais budistas em que os monges chegam a fazer, seguidamente, centenas de prostrações. No Confucionismo, no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo, é notória uma gama variada de prescrições rituais e de cerimoniais elaborados. O termo cerimonial provém do culto prestado a Ceres deusa romana da fertilidade.
A via ritual abrange os diversos domínios e relacionamentos da vida humana e não só. A harmonia dos rituais humanos enquadra-se na euritmia da natureza e de todo o universo. O ritual faz parte do instinto diversamente manifesto, desde o relacionamento dos insectos ao dos peixes e mamíferos. Os ritos constituem o psicodrama que põe em cena juntamente com os gestos, os sons, as cores e a fragrância, diversamente expressos e conjugados. Que se pense na mímica, no folclore, na ginástica, na dança, no jogo, nas paradas e tantas outras expressões da vida privada e pública.   
A via ritual é próxima da via artística, metendo ambas o acento na expressão e na forma. No entanto, a via artística á mais centrada no conteúdo, enquanto que a via ritual privilegia a forma. Roberto Assagioli valoriza a ritualização da vida quotidiana em que “cada gesto se torna um rito.” Todas as actividades individuais e colectivas se desenrolam num certo ritual. Este se traduz no relacionamento humano, mormente em manifestações de cortesia social relativamente a outrem. Mas há que atender igualmente à dimensão universal, no sentido de uma manifestação cósmica. Desde os átomos às galáxias, todo o universo se expressa numa orquestração rigorosamente programada e livremente executada.
Buda faz ver que, uma vez desprovido da elevação do seu significado, o ritual é um obstáculo à iluminação. Em psicossíntese, Assagioli associa o ritual a uma variedade de exercícios, tal como A Divina Comedia de Dante e a Legenda do Graal, tendo estes como os mais aptos à inclusão do nível transpessoal. A via ritual é por excelência aquela que favorece um processo de desidentificação que antecede a verdadeira identificação e favorece a co-identificação, no sentido de permitir ao ser humano a experiência de auto-realização, na consciência de ser, ao mesmo tempo, autor e co-autor, espectador e actor.                          

                                                                             João d’Alcor